Abrão, o judeu e Abramelin
1362 - 1460
Este é um artigo sobre Abrão, o judeu e Abramelin, após sua leitura conheça alguns produtos relacionados.
Tudo o que se sabe sobre Abrão, o mago, alquimista, teólogo e filósofo do século XIV é diretamente derivado do manuscritos de posse da Bibliotheque de l'Arsenal em Paris,
um arquivo, deve-se dizer, rico em fontes originais do ocultismo
medieval. O título completo da obra é em português "O Livro da Sagrada
Magia de Abramelim, conforme passado por Abrão, o Judeu para seu filho
Lamech." Inteiramente escrito em francês, este documento alega ser a
tradução de um manuscrito ainda mais antigo em hebraico, e o estilo da
caligrafia sugere um escriba que viveu no século dezoito ou no final do
século dezessete. A grafia e gramática do texto sugerem que o autor era
ou semiletrado ou pouco cuidadoso, possivelmente não tendo o francês
como lingua nativa.
Abraão, (doravente chamado de Abraham para
maior acuidade histórica) foi ao que tudo indica nativo de Mayence,
nascido em cerca de 1362. Seu pai, Simon, também foi adepto das
investigações ocultistas e da prática mágica e desde cedo guioi seu
filho nos estudos. Numa certa fase da vida, a tutotia do pai da lugar a
um outro professor indetificado com o nome Moses. Abraham no entando ao
crescer, rapidamente supera seu segundo mestre ao ponto de o descrever
por fim como "um bom homem, mas inteiramente ignorante do Verdadeiro
Mistério e da Verdadeira Magia."
Sem um guia a sua altura, a fase sgeuinte da sua vida é dedicada a numerosas viagens educacionais ao redor do mundo conhecido. Com seu amigo Samuel, boemio por natureza, ele visita a Austria, a Hungria, a Grécia até chegar a Constantinopla (atual Istambul) onde fixou-se por aproximadamente dois anos. Após isso Abraham viajou para a Arabia, em sua época talvez o maior centro de aprendizagem mística do mundo onde dedicou mais alguns anos de vivência. Em seguida dirigiu-se para a Palestina e então para o Egito onde aprendeu uma grande quantidade de segredos ocultos.
Foi nas terras do Egito que Abraham conheceu Abra-Melin, célebre filósofo da região, a esta altura já com idade avançada em uma pequena cidade chamada Arach próxima ao Rio Nilo. Lá
ele vivia em uma casa modesta no topo de um pequeno monte coberto de
árvores. Um homem gentil e educado, levando uma vida simples e regrada,
apóstolo do Temor a Deus e evitando qualquer acúmulo de riquezas. Ele
concordou em ensinar sua sagrada arte a Abraham com a promessa de que
ele abandonaria seus falsos fogmas e passaria a viver no caminho e sob
a lei de Deus.
Pelo presso de dez florins de
ouro, que foram distribuidos aos pobres da cidade, Abra-Melin confiou a
Abraham certos documentos contendo uma grande variedade de operações e
segredos acumulados durante sua vida. Este conhecimento parece emergir
de um cenário ocultista especificamente, mas não exclusivamente
judaico. Um exemplo claro disso são as receitas que ele lega para a
confecção do óleo e o incenso, que podem ser encontradas de forma
idêntica no Pentateuco. Em Êxodo 30:23-25, temos a receita para o Óleo
de Abramelim: "Também toma das principais especiarias, da mais pura
mirra quinhentos siclos, de canela aromática a metade, a saber,
duzentos e cinqüenta siclos, de cálamo aromático duzentos e cinqüenta
siclos, de cássia quinhentos siclos, segundo o siclo do santuário, e de
azeite de oliveiras um him." Pouco adiante em Êxodo 30:34-36, temos a
receita para o Incenso de Abramelim: "Toma especiarias aromáticas:
estoraque, e ônica, e gálbano, especiarias aromáticas com incenso puro;
de cada uma delas tomarás peso igual; e disto farás incenso, um perfume
segundo a arte do perfumista, temperado com sal, puro e santo e uma
parte dele reduzirás a pó e o porás diante do testemunho, na tenda da
revelação onde eu virei a ti; coisa santíssimá vos será."
Após
isso Abraham deixa o Egito e segue para a Europa onde eventualmente
fixa morada em Würzburg, na Alemanha, tornando-se profundamente
envolvido com o estudo da Alquimia. Nesta época ele se casa com uma
mulher, provavelmente sua própria prima, que lhe dá três filhas e dois
filhos. O filho mais velho foi chamado Joseph e o mais novo recebeu o
nome de Lamech.
Assim como seu pai, e provavelmente o pai de seu pai antes dele, Abraham instruiu seus filhos homens nos assuntos ocultos, enquanto que para suas filhas deixou dotes de 100,000 florins de ouro. Esta considerada soma de riqueza, assim como suas muitas viagens demonstram que Abraham foi um homem de posses, a quem nunca faltou sustento e recursos. Tesouro estes que o próprio mago atribuiu aos seus talentos como magista.
Ele também tornou-se célebre ao final da vida ao produzir impressionantes atos de magia na presença de pessoas famosas e importantes de sua época como o próprio Imperador Sigismund da Alemanha, o bisco de Würzburg, Henrioque VI da Inglaterra, o duque da Bavária e o papa João XXII. Aqui a narrativa se encerra e não existe detalhes sobre o final da vida de Abraham, sendo que a data e circustancias de sua morte são incertas, embora seja estimada como ocorrida em meados de 1460.
A Sagrada Magia de Abra-Melin
O documento mencionado, que é a origem destas informações biográficas foi traduzido em 1896 por Samuel Liddell MacGregor Mathers, um dos fundadores da Hermetic Order of the Golden Dawn e tornou-se um dos tomos mais importantes da magia cerimonial. As traduções mais recentes para o inglês feita por Georg Dehn e Steven Guth atribuem a autoria e e identidade histórica de Abraham com a de Rabbi Yaakov Moelin יעקב בן משה מולין. Diversos fatores nos levam a crer que Abraham, o Judeu é o pseudônimo ou o nome iniciático deste Rabbi, pois muitos dados biográficos deles se encaixam como uma luva na narrativa acima passada.
A primeira parte desta obra conta a própria história de vida de Abraham, tal como aqui mencionada. A segunda parte é baseada nos documentos entregues por Abra-Melin durante sua viagem ao Egito. Nesta seção do manuscrito são expostos os princípios gerais da magia, incluindo o capítulos como "Quais são e quais são as classes da Verdadeira Magia"? "O que deve ser levado em consideração para uma operação mágica", "Como convocar os Espíritos" e "De que maneira devem ser feitas as operações"
A terceira parte do documento é bem menos teórica e o autor supões que seu leitor sabe a base do que está sendo exposto. Aqui são tratadas a parte prática da operação mágica. São técnicas com vários propósitos como: provocar visões, reter espíritos familiares, dominar tempestades, transformar coisas e pessoas em diferentes formas e figuras, voar através dos ares, destruir edifícios, curar doenças, descobrir objetos roubados e caminhar debaixo d`agua. O autor ainda trata da cura taumaturgica de males como a lepra, a paralisia, a febre e o mal estar geral. Ele também oferece conselhos sobre como fazer-se amado por uma mulher e como conseguir o favor de papas, imperadores e pessoas influêntes. Muitas dessas façanhas são realizadas pelo emprego adequado de quadrados e signos cabalísticos. Com eles o autor ensina como causar visões específicas como a de homens armados, ou mesmo como evocar "Comédias, Operas e todo tipo de Música e Dança". Diferentes símbolos representam diferentes resultados nas operações.
O temperamento e personalidade de Abraham é revelado nas entrelinhas da obra. Nela há um evidênte pouco caso de quase todos os magistas de sua época e um quase desprezo de todas as obras ocultas que não as dele mesmo ou de seu mestre Abra-Melin. Abraham critica abertamente todos aqueles que se contentam com os dogmas das religiões em que nasceram e aponta que ninguém culpado desta falha jamais atingirá qualquer sucesso nas práticas da magia. A doutrina fundamental do livro é que o cosmos é povoado por hostes de anjos e demônios. Os demônios trabalham em última instância, sob a direção dos anjos O homem situa-se entre as forás angélicas e demoniacas. E a cada homem é designado um anjo protetor e um demônio tentador. O objetivo dos grandes iniciados é controlar seu demônio e atingir o contato e conversação com seu sagrado anjo guardião. Uma vez que tenha atigido este grau elevado o magista tem ao seu controle todos os espíritos infernais, e portanto grande poder sobre a criação. Apesar dos claros benefícios materiais e pessoas óbvios, em seus escritos existe uma fé bastante forte de que isso pode e deve ser feito não apenas para o benefício imediato do mago, mas sim como uma conquista que afeta imediatamente a posição da humanidade no cosmos.
O impacto no ocultismo posterior
Após
a tradução de MacGregor Mathers, este sistema ganhou um lugar de
destaque no ocultismo ocidental igualavel ao sistema enoquiano e as
chaves de Salomão. Sua herança direta pode ser encontrada no
Hermetismo, no Rosicrucianismo, na Thelema e mesmo no Neopaganismo.
Sem muita procura pode ser visto nas obras ocultistas posteriores
encabeçadas pelo próprio Mathers, assim como nos trabalhos de Aleister
Crowley e Dion Fortune. O primeiro obstáculo desta nova geraçao foi tentar sobreviver diante do
forte monoteísmo abraamico que permeia todo o sistema de Abra-melin. O
temor a Deus é o primeiro e mais necessário requisito da obra e a todo
tempo lembrada. Orações incessantes e leitura constante dos textos
bíblicos fazem parte do processo que leva ao contato do Sagrado anjo
Guardião. De fato, todos os outros tipos de operações mágicas são tidas
por Abraham como falsas e inúteis, verdadeiras armadilhas dos demônios
para afastar os adeptos do caminho da Grande Obra. Foi necessária uma
releitura histórica de todo o manuscrito para que ele pudesse ser usado
em uma época tão mais laica como os século XIX e XX.
O
grimório de Abramelim passou a ser visto então como uma coletânea de
conhecimentos mágicos muito mais antigos, na mesma medida em que
Plotino e Agostinho de Hipona fizeram os ensinamentos de Platão
atravessarem a Idade Média, Abramelim foi o responsável por apresentar
os mistérios Egípcios e Babilônicos numa roupagem monoteísta. Na perspectiva do ocultismo renascente do período de Crowley e compania, o judeu Abraham aproveitou o
trabalho de magistas mais antigos e dos sacerdotes da antiguidade e encharcou com toda a submissão e servidáo própria de sua religião.
Na mão dos autores modernos, o Anjo Guardião de Abraham desdobrou-se em equivalentes como o Gênio da Golden Dawn, ao Augoeideis de Iamblichus, ao Atman do Hinduismo e ao Daemon dos gnósticos. É Cristo em Jesus e Budha em Sidarta. A roupagem judaica foi portanto eliminada em prol de uma imersão com a egrégora mais antiga, mais primal e atávica.
Na magia cerimonial o objetivo é portanto
conseguir uma conexão com esta realidade intima superior. Em
Magick Without Tears, Crowley é enfático ao dizer: "Nunca se deve
esquecer nem por um momento que o trabalho central e essencial do
magista é atingir o Conhecimento e Conversação com o Sagrado Anjo
Guardião. Uma vez que seja atingido ele deve é claro se inteiramente
deixado nas mais deste Anjo, que pode ser invariavelmente e
inevitavelmente levá-lo ao grande passo seguinte - atravessar o Abismo
e obter o grau de Mestre do Templo."
Depos da edição de Mathers uma nova edição foi publicada em 1970 reapresentando a história de Abraham e o sistema de Abra-Melin a uma nova geração de magistas, muit mais acostumados com a experimentação e muito menos dada a dogmatismos de qualquer tipo. Apesar do respeito histórico pelo autor, existe uma tendência na maioria dos magistas contemporâneos em afirmam que em realidade o "Anjo da Guarda" de Abraham é o arquétipo profundo do Eu Superior, o Kia de Austin Spare ou do Self, para usar termos psicológicos atualizados. Ao atingir este estado de integração o adepto se torna consciênte de sua Verdadeira Vontade. Sua vida então é esclarecida com seu propósito. Com isso em mente, a operação de Abra-Melin se torna uma exploração do Eu Interior em direção a natureza divina que existe em potencial dentro de cada um. No Brasil, a editora Madras publicou uma edição sob o título "Santo Anjo Guardião - A Magia Sagrada de AbraMelin, o Mago Atribuída a Abraão, o Judeu".
Sources:
The Book of the Sacred Magic of Abra-Melin the Sage. Translated by S. L. MacGregor-Mathers. Chicago: De Laurence, 1932. Reprint, New York: Causeway Books, 1974.
The Book of Abramelin: A New Translation, Georg Dehn, transl. by Steven Guth, Ibis Publishing, 2006)
Santo Anjo Guardião - A Magia Sagrada de AbraMelin, o Mago Atribuída a Abraão, o Judeu, Editora Madras
