Alan Moore
1953 -
Pesquisa de Jose Carlos
Neves
Confira abaixo um resumo dos principais fatos na vida e bibliografia do escritor e mago inglês Alan Moore. Trata-se de excertos do livro Alan Moore: Portrait of an Extraordinary Gentleman, um livro-tributo dedicado aos 50 anos do artista. São páginas recheadas de ensaios, ilustrações, artigos, fotografias, entrevistas, e opiniões sobre o mago-escritor de Northampton. Escritores, desenhistas e pessoas relacionadas aos quadrinhos comentam sua relação com Moore.
Alguns nomes presentes no livro: Michael Moorcock, Ian Sinclair, Darren Shan, Brad Meltzer, John Coulthart, Neil Gaiman, Dave Gibbons, Bryan Talbot, David Lloyd, J. H. Williams III, Kevin O'Neill, Will Eisner, Howard Cruse, James Kochalka, Adam Hughes, Peter Kuper, Jose Villarubia, Jimmy Palmiotti, Rick Veitch, Michael T. Gilbert, Steve Parkhouse, Nabiel Kanan, Bill Koeb, Rich Koslowski, Trina Robbins, Michael Avon Oeming, Sean Phillips, Jeff Smith, Sergio Toppi, Giorgio Cavazzano, Claudio Villa, Daniel Acuna, Willy Linthout, Jean-Marc Lofficier, Eduardo Risso, Dave Sim, Ben Templesmith e outros tantos.
O lançamento da
editora Abiogenesis Press, do artista britanico Gary Spencer
Millidge, tem caráter beneficente. Toda sua renda está
destinada para o Fundos de Combate ao Mal de Alzheimer. Para mais
informações, acesse www.millidge.com
Linha da Vida de Alan Moore
- Alan nasceu com pouca visão na vista esquerda e
surdo do ouvido direito. Mesmo assim, ele evitou usar óculos
até quinze anos. Já adulto, abandonou os óculos
chegando a cogitar a possibilidade de usar um monóculo,
acabando por achar essa alternativa muito kistch.
- A primeira casa do jovem escritor não tinha banheiro nem gás em sua rua.
- Em 1961, aos 7 anos, Moore descobriu os quadrinhos americanos da DC Comics.
- Moore atribui sua formação
moral graças as histórias do Super-Homem.
-
Padecendo de uma gripe comum, o jovem Alan Moore pediu para a mãe
lhe comprar uma BlackHawk. Ao invés de trazer a HQ pedida, sua
mãe o presenteou com a edição número 3 de
Fantastic Four (Quarteto Fantástico). Essa revista foi o
primeiro contato do escritor com os trabalhos de Jack Kirby, de quem
se tornou fã imediato.
- Moore matava aulas no colegial
para andar de motocicleta no pátio de um hospital para doentes
mentais.
- Em 1968, Moore se tornou fã dos personagens
da Charlton Comics, que mais tarde seriam os arquétipos dos
personagens da maxi-saga Watchmen.
- Em 1969, ele começou
a colaborar com vários fanzines, sempre como desenhista
-
Aos 17, em 1970, Moore foi expulso da escola por uso de LSD. O
diretor escreveu uma carta para todas as outras escolas e
universidades da região, para que ele jamais fosse aceito em
outro estabelecimento de ensino.
- Sem poder estudar, Alan
trabalhou em um matadouro e limpou latrinas em um hotel de
Northampton.
- Nessa época, ele deixou o cabelo
crescer, ajudou a publicar o fanzine Embryo e conquistou sua futura
esposa Phyllis lendo poesias em um cemitério. Em 1974, aos
vinte anos, Moore e Phyllis se casaram.
- Em 1977, nasceu
Leah, a primeira filha de Moore. Nessa época, Moore percebeu
que tinha que fazer alguma coisa que gostasse logo ou então
passaria a vida frustrado. O escritor começou a colaborar com
jornais e revistas locais, escrevendo e desenhando tiras de humor. A
mais conhecida delas foi Maxwell, the Magic Cat, uma espécie
de Garfield inglês. Anos depois, Moore declarou que odiava
escrever as historias de Maxwell e que se sentia envergonhado de
receber dinheiro por elas. Mesmo assim, ele passou 7 anos escrevendo
estas tiras. Detalhe: Moore assinava as tiras com o pseudônimo
de Jill de Ray (uma alusão ao francês acusado de ter
assassinado dezenas de crianças).
- A experiência
com Maxwell mostrou que ele não servia como desenhista. Moore
passou a dedicar "apenas" a escrever.
- Moore
comecou a trabalhar com a Marvel UK (divisão anglo-saxônica
da Casa das Idéias) em 1981. Aos 27 anos, Moore escrevia
pequenas tramas nas revistas Star Wars e Dr. Who. Na mesma época,
ele fez alguns trabalhos para a 2000AD e teve sua segunda filha:
Amber.
- Em 1982, Alan recebeu sua primeira grande chance ao
escrever para a recém-criada revista Warrior. Para quem não
sabe, a Warrior publicava 4 a 6 histórias por edição,
cada história com 6 a 8 páginas. Moore escreveu 3 sagas
para a Warrior simultaneamente: The Bojeffrie’s Saga (uma família
de monstros muito engraçada), Marvelman (Miracleman) e V de
Vingança.
- Naquele mesmo ano, Moore começou a
escrever as histórias do Capitão Bretanha. Já no
primeiro capítulo, ele se livrou dos conceitos criados pelo
escritor anterior e no capitulo seguinte matou o próprio
protagonista da série, recriando-o totalmente reformulado na
edição de número 3.
- Enquanto a fama de
Moore crescia nos quadrinhos, ele encontrava tempo para se envolver
em outros projetos. Ele formou uma banda chamada The Sinister Ducks,
gravando um single em 1983.
- Na 2000 AD, Moore escreveu D.R.
& Quinch, uma hilária saga de dois alienígenas
delinqüentes. E ainda escreveu A Balada de Halo Jones e
Skizz.
- Todos esses trabalhos renderam a Moore o prêmio
Eagle Award de melhor escritor de 1982 e 1983. Foi quando os Estados
Unidos começou a se interessar pelos trabalhos do autor.
-
Em novembro de 1983, Lein Wein, criador do Monstro do Pântano,
ligou para a casa de Alan perguntando se ele queria trabalhar para a
DC e escrever as historias do monstro. Alan achou que era um trote e
desligou na cara do escritor. É claro que depois ele viu que
não era mentira e aceitou trabalhar com o personagem.
-
Sob ao comando de Alan Moore, Swamp Thing passou das 17.000
cópias/mês para mais de 100.000 cópias!!!
-
No período em que escreveu o Monstro do Pântano, Moore
fez outros trabalhos pouco divulgados na DC, como “Tales of the
Green Lantern Corps”, “Vigilante”(uma historia sobre abuso
sexual de crianças) e uma historia do Batman onde ele enfrenta
o Cara de Barro (publicada no Brasil na extinta SuperAmigos). Moore
ainda escreveu 2 histórias memoráveis com o Homem de
Aço (ambas relançadas no Brasil pela Opera Graphica).
Uma delas, “For the Man who has Everything” é
possivelmente uma das melhores histórias do Super-Homem.
-
O próximo trabalho de Moore seria A Piada Mortal. A história
foi escrita em 1985, mas devido a atrasos do desenhista Brian
Bolland, a revista só foi terminada e publicada em 1988.
WATCHMEN
Ainda
em 1986, a DC concordou em deixa-lo produzir sua própria
série. Com o artista britânico Dave Gibbons, Moore
sugeriu o projeto de uma série chamada WATCHMEN. A história,
como Weaveworld de Clive Barker, é uma epopéia sobre um
mundo fictício - embora o mundo que Moore inventou seja de
várias maneiras igual ao mundo real de hoje.
Começando em
uma Nova Iorque durante os anos 80, Watchmen descreve uma América
como poderia ter sido se realmente tivesse testemunhado o surgimento
de fato dos "super-heróis" - isto é, seres
que possuem habilidades super-normais ou que se apresentam como
vigilantes idealistas. Assim como a América nunca teria
sofrido uma divergencia política progressiva dos Anos
sessenta, imagina Moore, também nunca teria perdido a Guerra
de Vietnã, e teria achado um modo para manter Richard Nixon
como Presidente. Já no início de Watchmen, dificilmente
as coisas são sublimes: alguém decidiu eliminar ou
desacreditar os poucos super-heróis remanescentes enquanto
que, em uma série de eventos aparentemente não
relacionados, os Estados Unidos e a União soviética
desenham um crescente conflito nuclear por causa de uma disputa na
Ásia.
No centro da consciência desta história,
de olho na (e tentando desafiar a) maneira de como o mundo está
desmoronando, está um incomum herói criado por Moore:
um mascarado, horrendo e transtornado vigilante direitista conhecido
como Rorschach. Rorschach fala para o psiquiatra sobre a noite em que
ele cruzou a linha da brutalidade:
"Me senti limpo. Senti o sombrio planeta girando sob os meus pés e descobri o que faz os gatos gritarem como bebês durante a noite. Olhado para o céu através da espessa fumaça de gordura humana, e Deus não estava lá. A escuridão fria e sufocante, continua para sempre, e nós estamos sós. Vamos viver nossas vidas na falta de qualquer coisa melhor para fazer. Deixemos a razão para depois.
Nascemos para o
esquecimento; agüentando crianças destinadas para o
inferno, nós mesmos; caminhando para o esquecimento. Não
há nada mais. A existência é fortuita. Nenhum
padrão seguro imaginado por nós depois de encarar isto
por muito mais tempo. Nenhum significado seguro além do que
nós escolhemos impor. Este mundo sem direção não
é moldado por vagas forças metafísicas. Não
é Deus que mata as crianças. Não é o
destino que as abate ou que as dá de alimento para os
cachorros. Somos nós. Somente nós… Estava renascido
então, livre para rabiscar meu próprio desígnio
neste mundo moralmente vazio.."
O assustador Rorschach
"Aquela foi uma história terrivelmente
depressiva para se escrever," disse Moore, "em parte porque
Rorschach em nada se parece comigo: Eu não compartilho a sua
política, e nem compartilho a sua filosofia. Ele é um
homem aterrorizado e, em minha visão, ele acaba se rendendo ao
horror do mundo.
Mas eu penso que o fundo do poço dos
medos e ansiedades de muitas pessoas pode ser igual ao do Rorschach.
As coisas que uma vez usamos para nos abrigarmos da escuridão
- como Deus, a rainha, o país, e a família - foram se
distanciando de nós. Em muitos casos, temos esmagados a nós
mesmos, e agora nos deixamos tremendo na chuva, olhando para o mundo
e vendo um obstáculo preto que não tem nenhum
significado moral, afinal".
Até que alcance seu
devastador mas reafirmado fim, é evidente que, acima de tudo o
mais, Watchmen é uma história de como as pessoas
encaram a perplexidade do mundo de hoje: como alguns se movem
furiosamente e de maneira fatal contra ele e de como outros,
heroicamente, reúnem forças até mesmo em face ao
Armageddon.
"Enquanto estava trabalhando em Watchmen,"
conta Moore, "eu tive que me perguntar, O que é que mais
me assusta? E percebi que a verdade é que quando o mundo
acabar, não haverá nenhum aviso de quatro minutos, não
haverá nenhum conflito nuclear de baixa escala. A verdade é
que os mísseis poderiam estar no ar em cinco minutos. E se
houver um Armageddon nuclear, não iremos retirar o pó
de nós mesmos e nem reinventar os valores humanos. Não
poderia haver nenhum valor humano após uma guerra nuclear
porque não haveria nenhum humano.
Nosso passado seria
erradicado. Nosso futuro seria erradicado. Nosso presente seria
erradicado. E eu me achei pensando, Quando as crianças foram
para escola esta manhã, eu gritei com elas ou lhes falei que
eu as amo?".
Os roteiros de Moore para essa saga viraram
uma lenda pela riqueza de detalhes. O primeiro capítulo, por
exemplo, tinha mais de 100 páginas e foi entregue ao
desenhista Dave Gibbons sem parágrafos.
Com Watchmen,
Moore virou uma celebridade do mundo dos quadrinhos, mas não
estava feliz com isso. Certo dia, em uma convenção
sobre HQ´s em San Diego, ele foi cercado por dezenas de fãs
que o imprensaram contra uma escadaria na tentativa de agarrá-lo
e conseguir um autógrafo. Moore decidiu que jamais
participaria de convenções novamente.
A Casa do Trovão, em Twilight of the Superheroes
O próximo
projeto de Moore na DC seria Twilight of the Superheroes, mas por
razões desconhecidas, esse projeto não foi adiante.
Anos depois, muitas das idéias de Moore para essa série
seriam reaproveitadas na aclamada saga “Kingdon Come”(Reino do
Amanhã) de Mark Waid e Alex Ross. A dupla nega qualquer
reciclagem dos conceitos de Twilight.
Moore, que já não trabalhava para a Marvel desde a época de Capitão Bretanha, tambem passou a não trabalhar mais para a DC, pois discordava sobre os royalties de Watchmen e principalmente com o fato da DC adotar o código “for mature readers” (própria para leitores maduros/adultos) nas suas revistas.
A última colaboração de Moore para a DC foi o final de V de Vingança, que havia ficado incompleta apos a falência da Warrior. A série foi reeditada nos EUA e se tornou outro best-seller.
Miracleman
Na mesma época,
ele voltou a escrever Miracleman (agora para a editora Eclipse). Além
de tudo o que já havia sido escrito para a Warrior, Moore
criou novas historias, entre elas a maravilhosa saga Olympus. Depois
disso, ele passou os direitos autorais do personagem para Neil Gaiman
(que mais tarde resultou naquele pega ´pra capar entre Gaiman e
a cria do inferno, Todd McFarlane. O embate jurídico dura até
os dias de hoje).
Moore recusou varios trabalhos nessa
época, inclusive o roteiro de Robocop 2 (que assumiu a criança
foi Frank DKR Miller). Seus próximos trabalhos foram o livro
“Brought to Light”, com ilustrações de Bill
Sienkieckz e a graphic novel “A Small Killing”.
Em 1989,
Moore decidiu colaborar com a recém-criada revista “Taboo”
de Stephen Bissete (parceiro de Moore em Swamp Thing). Para a Taboo,
ele escreveu a espetacular “From Hell” - fruto de mais de 8 anos
de pesquisa, e “Lost Girls”.
Ainda naquele ano,
Moore passou a viver um triângulo amoroso com sua esposa e sua
namorada Deborah Delano. Irritado com a intolerância do governo
de Margareth Tatcher com os homosexuais, Moore colaborou com
entidades GLS, publicando a história "Mirror of Love",
pela editora Mad Love, propriedade do próprio autor e de sua
esposa.
Big Numbers
O próximo
projeto era a serie Big Numbers, projetada para 12 capítulos e
mais de 500 páginas. Somente 3 edições foram
lançadas, 2 com desenhos de Sienckwiecz e uma com os traços
de Al Columbia. Ninguém sabe ao certo porque o projeto nao foi
adiante, mas especula-se que a complexidade do texto de Moore foi
demais para os desenhistas que nao conseguiram dar conta do
recado.
Nessa época teve início o inferno astral
de Alan Moore: a Mad Love faliu e seu casamento terminou. A Taboo
também chegou ao fim, deixando sagas como From Hell para serem
completadas anos depois.
Em 1993, Moore tomou uma decisão
que desapontou muitos de seus fãs. Aceitou trabalhar para a
Image Comics escrevendo títulos como Spawn, Supreme, Glory,
Youngblood, Wild C.a.t.s. Moore desabafou que aquilo não era
um retrocesso ou que ele estava vendendo sua alma para os demônios
Rob Liefeld e Jim Lee, e sim um desejo de escrever histórias
mais simples, para garotos de 14 anos e não para adultos de
30. Ainda pela Image, ele participou do projeto 1963. Este ultimo
projeto acabou gerando uma briga entre ele e Stephen Bissette. Até
hoje eles não se falam.
Moore passou a morar com uma
nova companheira: Melinda Gebbie. No dia em que completou 40 anos,
Moore decidiu se tornar um mago. Ainda em 1993, ele praticou
performances teatrais como “Snakes and Ladders” e “BirthCaul”.
Mais tarde essas performances foram adaptadas para HQ´s por
Eddie Campbell, seu companheiro de trabalho em From Hell.
Algumas
conclusões de Moore em relação à magia
foram adaptadas para histórias como Supreme, Glory e mais
tarde Promethea. Em Supreme, Moore explorou o conceito do IDEASPACE,
um mundo de arquétipos, semelhante ao Mundo das Idéias
de Platão. Supreme vai investigar uma estranha cidade no alto
do Tibet, encontrando uma paisagem desnorteante, formada por um
grande número de paisagens diferentes fundidas numa só.
Há partes dela que parecem como um bairro decadente durante a
Depressão de 1930, onde ele conhece uma gangue de crianças
e um herói fantasiado.
O Grande Criador
Supreme continua a
vagar pela estranha paisagem até encontrar uma trincheira de
um campo de batalha, onde há uma infinidade de soldados de
várias etnias: Um irlandês, um judeu, um negro, tudo
muito parecido com o Sgt. Fury e toda uma enorme linha de heróis
patrióticos.
Isto continua até Supreme conhecer
o criador supremo deste mundo, que se mostra ser Jack Kirby. Isto é
muito difícil de explicar porque leva uma história
inteira para ser contada, mas é basicamente uma gigantesca
cabeça flutuante, que se altera sob uma fotomontagem da cabeça
de Kirby em transmutação; ela sempre é
apresentada no estilo dos desenhos de Jack Kirby. Esta entidade
gigantesca explica a Supreme que ele foi um artista de carne e osso e
sangue, mas agora ele está completamente no reino das idéias,
que é muito melhor porque a carne e os ossos e o sangue tem
suas limitações, já que ele podia fazer somente
quatro ou cinco páginas em um dia de trabalho; mas agora ele
existe puramente no mundo das idéias. As idéias só
podem fluir sem interrupções. Ele fala sobre todo um
conceito de um espaço onde idéias são reais, que
é o tipo de lugar onde, de algum modo, todos os criadores de
quadrinhos trabalham durante toda a sua vida, talvez Jack Kirby mais
do que a maioria. É como se uma idéia se tornasse livre
do corpo físico, e este artista pode então explorar os
mundos infinitos da imaginação e das idéias.
Em
1996, Moore escreveu seu primeiro romance, intitulado A Voz do Fogo.
Foram 5 anos para escrever este livro, um tratado de 5 mil anos da
sua cidade natal, Northampton. O primeiro capítulo é
narrado em primeira pessoa (de forma muito singular) por um
personagem que vive numa Northampton paleolítica, quando a
cidade tinha duas a três cabanas de barro e uma ponte. O
segundo é narrado em primeira pessoa por um personagem
totalmente desligado do primeiro que vive em Northampton durante a
Idade de Bronze, em uma comunidade que começou a crescer, se
desenvolvendo através das eras. Lentamente, nós movemos
através dos séculos, até o décimo
primeiro capítulo, que é narrado pelo próprio
autor na Northampton do presente.
Trabalhando para a editora
Wildstorm (que acabou sendo posteriormente vendida para a DC) Moore
criou uma nova linha de HQ´s, a America’s Best Coomics (ou
ABC), onde surgiram as aclamadas séries: Top Ten, Tom Strong,
League of Extraordinary Gentlemen, Promethea e Tomorrow Stories.
Aos
50 anos, Moore anunciou que pretende se aposentar dos quadrinhos.
Será?
Liga dos Cavalheiros Extraordinários
Se você
assistiu LXG, a dica de leitura é um antídoto para a
pataquada que você viu na telona. Leia a edição
especial A Liga Extraordinária da Devir. Apesar do preço
salgado (R$ 45,00), você pode encontrar esse lançamento
na FNAC por R$ 36,00. Preço justificado pela luxuosa edição
de 192 páginas repleta de material inédito, incluindo o
tão aguardado conto "Allan e o Véu Rasgado",
no melhor estilo das obras de H.P. Lovecraft.A Liga de Moore não
tem nada a ver com aquela versão X-Men Vitorianos. As
Aventuras da Liga dos Cavalheiros Extraordinários é o
fanfict definitivo: Imagine uma força-tarefa formada por
personagens da literatura inglesa, mas com uma pitadinha do tempero
de Alan Moore: Então o Capitão Nemo é uma figura
intrigante, um fanático cheio de equipamentos misteriosos.
Hyde é de uma complexidade assustadora. Mina Murray não
é uma vampira anabolizada e o decadente Alan Quatermain passa
longe da interpretação impecável de Sir Connery.
Só para você ter uma idéia, o Quatermain da HQ é
viciado em ópio! Leia o mais rápido possível e
fique aguardando ansiosamente o volume dois, ainda "inédito"
aqui no Brasil.
Entrevista com Alan Moore
Apresento-vos uma entrevista com o escriba, realizada
por Alan David Doane. A tradução é de David
Soares (Portugal)
Eu soube que este
"Quiz de 5 perguntas" seria um esforço maior que os
anteriores, excedendo certamente esse número de questões,
quando o homem que eu considero ser o melhor escritor de banda
desenhada de sempre deteu-se, pensativamente, durante oito minutos
para responder à minha primeira interrogação
(envisionando e esclarecendo, em conjunto, as seguintes). Olhando a
isso, abandonei a fórmula inicial; que outra escolha tinha?
Durante a década de 80, Alan Moore recriou a banda desenhada
por imprevisto, como irão ler adiante, e, desde a sua estréia,
uma engenhosidade e paixão superlativas constantes são
as características reconhecidas no seu trabalho. Conversar com
Alan Moore, mais que uma honra, foi uma aventura e é meu dever
agradecer ao autor a sua disponibilidade, mas, também, a Chris
Staros, da Top Shelf Productions, por apadrinhar este encontro. Esta
editora publica muitos dos melhores trabalhos de Moore, como o seu
romance "Voice of the Fire".
Alan David Doane – O que te inspirou a escrever um romance com a profundeza de "Voice of the Fire"?
Alan Moore – Sempre vivi em Northampton, como os meus pais, talvez tenha sido isso. Somos todos descendentes uns dos outros nesta única grande família que são os seus cidadãos. "Nascidos de fresco com sangue em segunda-mão", como gostamos de dizer por cá. Esta cidade fascina-me e saber que a sua história, tão singularmente rica, é completamente ignorada sempre se me apresentou contra-sensual. A maioria dos ingleses é capaz de identificar Northampton apenas como uma mancha indistinta a meio da M-1, entre Birmingham e Londres, mas quando comecei a investigar as suas origens na altura em que me lembrei de escrever este livro encontrei matéria convincente o bastante para concluir que Northampton é, mesmo, o centro do universo. No mínimo, eu fiquei convencido.
Penso que a sua é uma história esplêndida que remonta desde a Idade da Pedra quando caçadores de mamutes, e os próprios mamutes obviamente, ainda caminhavam sobre estas ruas, atravessando a Idade do Bronze e as migrações dos povos Celtas, prosseguindo pela Idade do Ferro e as invasões romanas e, ainda, parece-me ser uma cidade que assumiu sempre uma importãncia central, de um modo mais complexo que a sua simples localização geográfica. Lembro-me, se me encontro sem erro, que os avós de George Washington, e de Benjamin Franklin, habitavam duas pequenas aldeotas vizinhas durante os anos da Guerra Civil Inglesa. Os pais de Washington moravam aqui, os pais de Franklin moravam em Ekton e ambos os casais abandonaram Northampton após a guerra civil que terminou nesta cidade (provavelmente, o local mais desconfortável para comprar uma casa durante o séc. XVII) e emigraram para a América. De acordo com aquilo que sei, a própria bandeira norte-americana é baseada no seu, agora esquecido, brasão de família, tradicional de Northampton.
O tipo que descobriu o ADN, Francis Crick, viveu aqui e foi aluno na mesma escola que eu frequentei com apenas algumas décadas de intervalo entre os seus anos lectivos e os meus e ia semanalmente à catequese na igreja que ainda se encontra no fim da minha rua. Muitos episódios da história inglesa também circulam Northampton, como a Guerra das Rosas que também conheceu o seu fim neste lugar, simetricamente à nossa Guerra Civil, como já te contei, e a Conspiração da Pólvora que foi urdida nesta cidade e pretendia rebentar a sede do parlamento, em Londres, em 1605. Pensamos, inclusive, que o empreendimento foi um fracasso e é por essa razão que o tornámos numa festa anual, mas os conspiradores não se saíram, realmente, mal.
Também foi nesta cidade que a rainha Mary, da Escócia, foi decapitada e é avaliando esse conjunto de acontecimentos que te digo que existe muita história aqui, nem sempre agradável, admito, mas está presente uma força nuclear para a vida humana e que influenciou de certeza a evolução do modo de vida inglês, e, em última análise, possivelmente outros modos de vida em outros lugares.
A génese do livro nasceu dessa fé que me diz que, sim, Northampton é, na verdade, o centro do universo. Acredito nisso, assim como acredito que é esta é uma cidade despida de características especiais. Posso dizer-te que qualquer pessoa, habitante de qualquer lugar sobre o globo, pode desenterrar uma mão-cheia de maravilhas da terra do seu próprio quintal, se tiver feito uma pesquisa paciente sobre esse local e se for engenhosa o bastante para as encontrar. Demasiadas vezes caminhamos pelas nossas ruas, a pé ou de automóvel, e não compreendemos que sob as fachadas descaracterizadas se pode esconder o antigo cárcere de algum poeta ou um sítio reservado ao homicídio, o sepulcro oculto de alguma rainha lendária e é o somatório destas pequenas histórias que enriquecem um lugar: de repente, não te encontras simplesmente a passear numa cidade comum, aborrecida e homogénea, mas numa aventura em avenidas prodigiosas recheadas de histórias fantásticas. Na minha opinião, viver é uma experiência muito mais recompensadora se conhecermos intimamente a parte do mundo que nos foi destinada como casa e esta é a melhor resposta que te posso dar sobre a tua pergunta.
ADD – Bom, na verdade já respondeste às primeiras quatro perguntas.
AM – A sério? (Risos) Estou em forma.
ADD – (Risos) Sendo assim, vamos à última. Imagino que durante a criação das histórias deste livro, à medida que ias desenvolvendo a tua pesquisa e estruturando a narrativa, foste apanhado de surpresa por algumas coisas acidentais que não estavam previstas quando iniciaste o empreendimento.
AM – Fui surpreendido por uma grande quantidade de coisas. Repara que uma das minhas premissas iniciais era a de não querer escrever um trabalho histórico, por que não queria abdicar da liberdade que um trabalho de ficção me oferece, como, por exemplo, entrar na personalidade das pessoas sobre quem eu pretendo escrever e o sentido dessas vidas, pois acredito que dessa forma o resultado final é mais verdadeiro, mais humano. Contudo, mesmo conjurando todas estas vozes fictícias do passado queria que o seu discurso se baseasse em fatos reais e circunstâncias possíveis e comecei com esse objetivo em mente para, em seguida, compreender que determinados temas, determinadas imagens, estavam a emergir da minha narrativa.
Aparentemente, a maioria dos episódios ocorrem em Novembro, no dia do meu aniversário,e, paralelamente a isso, outros elementos estavam a manifestar-se repetidamente em diferentes histórias e indicavam-me uma espécie de padrão: pessoas com membros amputados; matilhas de cães pretos espectrais; cabeças decepadas e outros ícones de natureza igualmente inquietante.
O desafio de "Voice of the Fire", se eu queria realizar esse livro de acordo com a minha ideia original, era ter um narrador diferente para cada uma das doze histórias, alguém que pertencesse a esse espaço-tempo e que relatasse na primeira pessoa. Para o último capítulo, que tem lugar nos dias de hoje, o único narrador possível só poderia ser mesmo eu próprio. Contar essa história com a minha voz, debruçando-me sobre os meus assuntos particulares sem inventar pormenores sobre o que estaria a acontecer durante essa altura e, coincidentemente, quando finalmente comecei a fazê-lo, descobri que já me encontrava em Novembro, mais uma vez... Iniciei a escrita desse capítulo com a esperança que a própria cidade me sugerisse um final que amarrasse todas as pontas e todas as hipóteses que fui deixando por rematar ao longo dos capítulos anteriores sem saber se isso iria acontecer ou se, pelo contrário, os últimos cinco anos da minha vida tinham sido um logro e que não deveria ter começado o livro, em primeiro lugar.
Sempre acreditei que existem momentos na vida de um escritor em que ele, ou ela, é confrontado com a noção de que as fronteiras entre a ficção e a vida real são, muitas vezes, inexistentes e isso é frequente em trabalhos nos quais optamos por um registro auto-referencial. Esses dois universos inclinam-se para um maior cruzamento à medida que te aproximas de casa o que pode ser desconfortável, no mínimo. Por isso não foi surpreendente, mas ainda assim bizarro, quando sucessivas ocorrências se conjugaram para satisfazer as necessidades do meu texto. Coisas sobre e com cabeças cortadas e enormes cães pretos que me mostraram que enquanto ações mirabolantes têm lugar na ficção, outros movimentos igualmente mirabolantes, e perigosos, acontecem na vida real; experiências que são simétricas. Por mais que as esperes, são sempre perturbantes.
ADD – Esse capítulo final, acredita, foi uma das coisas mais perturbantes que já li.
AM – Pois. Obrigado.
ADD – Existe uma frase nesse capítulo… Tu sabes qual: "O Homem escreve.", "O Homem escreve."…
AM – Sim.
ADD – Essa tua frase que aparece repetidas vezes e que parece tão absurda consegue reunir toda a informação do livro e fazer sentido no final, quando todas as centenas de páginas e todas as centenas de anos que assimilaste acabam por nos conduzir à tua casa, ao teu quarto, não é verdade?
AM – É quase isso. Não és conduzido ao meu quarto, felizmente para ti, mas à minha mente. Até esse ponto exato, ainda poderias pensar que "Voice of the Fire" é composto por uma série arbitrária de histórias suavemente associadas em órbita da minha cidade e nesse capítulo quis fundir tudo isso: as histórias, a minha vida, a minha mente e as vidas e as mentes dos leitores. Aparentemente, para surpresa de todos, o livro acaba mesmo por ser sobre mim. Pode ser sobre mim, sentado a escrever o próprio livro. Ou ser sobre o processo criativo de se escrever outro livro. Ou sobre outro assunto qualquer. É isso. E fico contente que tenhas reagido bem à frasezinha, por que ela arrepiou-me um bocadinho quando a escrevi. Lembro-me que pensei: "-Isto está a ficar sinistro, por isso devo estar a criar algo interessante".
ADD – A frase não é sinistra, em si, mas consegue impressionar-te dessa forma.
AM – Obrigado.
ADD – É perturbante, como já te disse. Aliás, já li o teu "From Hell" e senti em algumas passagens dessa história que ultrapassaste a barreira entre autor e leitor. Uma barreira que não tinha sido ultrapassada em nada que já tivesse lido.
AM – Isso é maravilhoso…
ADD – Não tenho a certeza de qual dos livros foi editado em primeiro lugar, mas o efeito que "Voice of the Fire" me provocou pareceu-me uma ampliação do que senti em segmentos de "From Hell", naqueles momentos em que tu, como acabaste de explicar, penetras, e nós contigo, na mente da personagem, que neste caso és tu. Não tinha pensado nisso, mas o leitor acaba por se transformar em Alan Moore.
AM – Pois… é possível. Penso, inclusive, que um ingrediente que pode ajudar a cozinhar esse efeito é o facto de que no último capítulo de "Voice of the Fire" não possuo um conhecimento "in loco" do meu consciente não-autónomo, ou seja: o meu "eu" pensante. Falando nisso, nunca utilizo a palavra "eu", entendes? Acaba por funcionar como uma narração na primeira pessoa do singular, mas sem uma pessoa. Não sei se era a isto que fazias referência, mas eu também não compreendo muito bem o que me leva a escolher uma determinada forma de fazer as coisas. Na altura, pareceu-me que funcionava.
Pareceu-me que deixava o leitor respirar, sem estar constantemente a ser confrontado com a noção de que é um… deixa-me pensar… um ego de outra ordem que fala com ele. Fico satisfeito pela tua reacção a esta experiência."Voice of the Fire" e "From Hell" nasceram mais ou menos na mesma altura, talvez com um ano de diferença, e isso acaba por estabelecer uma comunicação entre os dois, por que têm algumas afinidades, como, por exemplo, o facto de partilharem um momento da minha vida em que decidi tornar-me um ocultista e estudar a fundo matérias que estão imersas num mundo à parte às quais, vulgarmente, chamamos magia. No "From Hell" isso está explícito nos diálogos de William Gull quando ele nos descreve as suas crenças e que os deuses existem realmente, em majestade e monstruosidade, na nossa mente. Escrevi isso quase por acidente e compreendi depois que tinha escrito algo mais profundo, algo significante que, eventualmente, acabou por introduzir o meu interesse pela magia.
Certamente, esta inclinação coloriu com outros tons o final de "From Hell", e a conclusão de "Voice of the Fire". Este título reservou-me outra surpresa: comecei o livro contando a história de um xamã que procura um código de palavras, uma ladainha, um conjunto mnemónico para aglutinar o seu povo e na última história, eu sou esse xamã, inconscientemente, milénios depois, realizando a mesma rotina. Não a mesma, claro, pois os meus métodos não envolveram nenhum sacrifício humano. Podes dormir sossegado.
ADD – A mensagem de "From Hell, bom, pelo menos a que eu retirei da minha leitura e que, infelizmente, não é expressa pela sua adaptação cinematográfica…
AM – Tens de compreender que estás em vantagem sobre mim nesse tópico, por que não vi o filme.
ADD – Tudo bem. Penso que na melhor das hipóteses representar todas as preocupações do teu trabalho, já por si bastante extenso, num filme de duas horas é uma tarefa impossível de concretizar. Mas falava-te do que retirei do livro, a tal mensagem que é a de que a arte tem o poder de transformar o artista, até divinizá-lo, e no decurso da minha leitura percebi que ambos os livros, "From Hell" e "Voice of the Fire", partilham essa preocupação. Não sei se foi intencional, mas a verdade é que quando se chega ao fim desses livros essa mensagem é, de facto, sugerida.
AM – A magia tem o poder de mudar a relação que tens com o mundo que te rodeia e isso aconteceu comigo. Comecei a olhar as coisas de outra forma, com um sentido, felizmente, mais útil, até, e considerando tudo isso, o que dizes sobre os dois livros pode ser verdade. Através deles, apresento uma visão alternativa da nossa história e das nossas experiências, mesmo que em "From Hell" a minha intenção principal fosse contar uma história sobre um crime, um homicídio. Nessa altura, nem pensei nos crimes de Jack, o estripador. Era, apenas, o uso de um crime como uma experiência avassaladora que me norteava. Felizmente, um homicídio, no contexto de uma vida, é uma experiência bastante improvável. Repara que o número de pessoas que acabam por morrer dessa forma é, ainda assim, muito reduzido.
Essa raridade sugeriu-me a idéia de falar sobre o homicídio de uma forma particular. Porquê abordar apenas a identidade do autor, que parece ser o motor constante de tantos romances policiais? Essa é uma alusão quase tão redutora como um vulgar jogo de salão. Como o CLUEDO, por exemplo, onde só precisas de descobrir quem foi o assassino, a arma que usou e em que local a vítima foi abatida. Com "From Hell" quis esclarecer, também, as variáveis sociais e culturais que permitiram a práctica desse crime, muito mais que, somente, especular sobre a identidade do homicida. Queria ver como um crime poderia agir sobre a sociedade e estudar todas as hipóteses de desenvolvimento que poderiam florescer posteriores a essa ação.
Prosseguindo nessa óptica, se estás a falar sobre um crime, essa experiência avassaladora que pode acontecer na nossa vida, tomas consciência que és capaz, inclusive, de ir mais longe e ter alguma coisa a dizer sobre a grandiosidade da própria condição humana. Podes dirigir este ponto de vista para "Voice of the Fire", claro, mas desviado suavemente, já que a intenção desse livro não é provar-te que Northampton é o núcleo do universo, mesmo tendo fé absoluta na verdade dessa afirmação, como já te disse, mas mostrar-te que qualquer local, onde quer que te encontres, é muito mais rico, muito mais exótico e prodigioso do que parece à primeira olhadela, entendes? No primeiro livro, procurei mostrar um ponto de vista crítico sobre a condição humana e a cultura, neste caso a cultura e a sociedade inglesas, usando um crime como casa de partida, mas com "Voice of the Fire", as minhas ambições estavam à solta, a pensar em outras paisagens e para onde a nossa evolução nos conduz. Penso que o que estabelece a comunicação entre os dois livros é mesmo o meu interesse pela magia, que influencia o meu modo de olhar as coisas e de as contar.
ADD – Gostaria que falasses do modo como vê a tua carreira na banda desenhada e a forma como as obras que tu escreveste, como "From Hell", mas também "Watchmen" e "The League of Extraordinary Gentlemen", mudaram o comportamento da indústria da publicação de comics.
AM – Posso dizer-te que a minha ambição foi sempre ganhar a vida como cartunista e nem pretendia ser famoso. O problema foi quando descobri que nunca seria um artista bom e rápido o suficiente para aguentar uma carreira nessa atividade.
Lembrei-me, então, da hipótese de me concentrar na escrita, por que senti que poderia fazer um trabalho melhor como escritor e que desenhando os storyboards para as histórias a minha ligação com o desenho continuaria. Investi com essas premissas e compreendi logo no início que seria incapaz de escrever uma história de encomenda. Se uma idéia sugerida não fosse aquilo que eu tinha em mente, invertia-a para a transformar em algo que me desse prazer escrever ou que fosse, no mínimo, um desafio. Penso que o método que desenvolvi me salvou de muitos compromissos e sempre me providenciou com a motivação necessária para realizar um bom trabalho.
Comecei a ser requisitado aos poucos, para ali e para acolá, em resultado dele e apliquei-o, concisamente, quando a DC me engajou para escrever o "Swamp Thing". Na minha lógica, o leitor nunca se irá interessar em ler uma história escrita por mim, se eu próprio não estiver interessado em escrevê-la. Isso pressente-se, não te parece? Penso que os leitores são muito bons em descobrir se o autor gostou realmente de fazer o seu trabalho.
Tive de tornar o material mais arrojado, mais destemido,
para o forçar a ser interessante. Pensei que fosse arranjar
uma porção de problemas por causa disso, mas não.
Os leitores compreenderam as minhas escolhas e eu, encorajado por
eles, inovei mais ainda, sempre com o apoio da Karen Berger, claro, a
minha editora da DC na altura, e, também, por outras pessoas
que apreciaram muito a subida das vendas do título, sempre
maiores a cada mês. Todo esse conjunto de situações
fez nascer uma relação de confiança mútua
na qual os editores perceberam que se eu tivesse controlo sobre as
minhas decisões criativas nunca lhes iria apresentar um
trabalho inteiramente despropositado e foi essa credibilidade que me
permitiu ir sempre mais longe, por vezes a locais perturbadores ou
tétricos, mas sempre interessantes. De que forma é que
isso influenciou a indústria? Não te posso oferecer uma
explicação clara. Depende da minha disposição,
se queres
mesmo saber. Se eu me sentir deprimido penso que a
minha influência foi terrível e que os autores que
cresceram a ler o "Swamp Thing" ou "Watchmen" só
foram capazes de imitar a violência desses trabalhos, e a sua
pose intelectualista, sem a suportarem com a ingenuidade e a aventura
que também lá se encontram. Sinto que ignoraram
completamente a minha vontade de romper os limites da própria
fórmula de contar histórias em BD e contentaram-se em
produzir uma série de livros tristes e penosos. Como te disse,
esta visão desconsolada da realidade depende muito da minha
má-disposição e hoje tiveste azar.
A sério que gostava mesmo de acreditar que, em vez de tudo isto que contei, consegui realmente mostrar com o meu trabalho que a banda desenhada permite inúmeras possibilidades aos seus autores e que estão para nascer livros fabulosos com contornos que somos incapazes de imaginar neste momento. Que podes fazer tudo com algo tão simples como palavras e imagens se as abordares sensivelmente e se fores inteligente, diligente e virtuoso no teu esforço. Talvez esteja a ser brusco, lamento, mas queres afirmar que existe uma influência minha na indústria? Então, por favor, coloca-a aqui em vez de encorajares a minha percepção de que a minha herança será invariavelmente composta por psicopatia e sarcasmo.
ADD – Sou capaz de regressar mais longe que os anos oitenta, quando o teu "Watchmen" e o "The Dark Knight Returns", do Frank Miller, foram publicados. Na minha opinião, o que poderá ter iniciado a redefinição das personagens, dos super-heróis, poderá muito bem ter sido aquela história que escreveste no "Swamp Thing" na qual representaste os membros da Liga da Justiça, o Batman, o Super-Homem e os outros, como se fossem novos deuses, curiosos em relação à humanidade. É um segmento de quantas páginas? Duas? Contudo, penso que a mudança começou nesse momento.
AM – Quem sabe se a razão está do teu lado… Lembro-me que foi a primeira vez que escrevi sobre super-heróis, no mínimo, os americanos. O Swamp Thing não conta, por que, na altura, era refugo. Para mim, escrever essa história foi voltar a divertir-me com os brinquedos da minha infância, o Flash, o Super-Homem e sentá-los todos no seu grande gabinete cósmico e devolver-lhes o carisma que eles costumavam ter para mim e que, infelizmente, se tinha transformado num sentimento mais próximo de casa. Fi-lo usando pequenos ardis, como nunca os chamar pelo nome verdadeiro e ocultá-los na penumbra. Podes ver uma insígnia pelo canto do olho ou uma silhueta, mas isso é tudo. Sobretudo, quis fazer poesia com estas personagens.
Dizer que uma personagem consegue ver o que acontece no outro lado do globo ou que é capaz de aquecer a antracite o suficiente para a transformar em diamante, como fiz para o Super-Homem, ou que se move a uma velocidade tão intensa que a sua vida se assemelha a uma visita numa galeria de estátuas, como escrevi para o Flash. Falei em poesia e isto, de fato, não é um exemplo de boa poesia, mas constitui um novo olhar sobre estas personagens que temos inclinação a desdenhar, ou a esquecer, por que se tornaram, com o passar dos anos, demasiado familiares e a aproximação que nos liga às coisas e aos assuntos tende, por vezes, a criar essa desilusão. Só pintei uma maquilagem nova sobre o encanto que já existia. O Frank Miller fez a mesma coisa nas páginas do "Daredevil", não? Quando introduziu outras personagens da Marvel nessa cronologia.
ADD – Tens razão, mas repara que ele não se desviou dos padrões instituídos e nunca nos fez olhar uma personagem conhecida de um modo singular. A mesma acusação é válida para a maioria dos criadores posteriores. É mesmo como dizes: se tivessem considerado a face mais experimental dos vossos trabalhos em vez de se concentrarem no sensacionalismo as coisas poderiam, certamente, ter conhecido outra evolução.
AM – Não duvides e essa face mais arriscada é o que existe de atraente no trabalho do Frank, essa sua mestria narrativa e a inovação constante que ele introduziu no género através das histórias do Demolidor e do Batman, muito mais que o desalento e a testosterona. Seria tão bom se a sua influência penetrasse mais fundo que a camada superficial feita de sexo e violência.
Não vamos dizer, todavia, que tudo o que apareceu depois de "Watchmen" e "The Dark Knight Returns" se encaixa nessa pobre categoria e posso dizer-te que na periferia do mainstream encontras grandes trabalhos que não são clones de nenhum destes títulos, mas ainda assim penso que a nossa herança é maldita e uma péssima desculpa para oportunidades perdidas, o que não desvirtua a qualidade do trabalho do Frank e do meu, obviamente.
ADD – Esta conversa sobre herança vem mesmo a propósito. O teu amigo Neil Gaiman já tornou público o que ele diz ser "a conclusão, ou o fim eminente, de um episódio interminável com um editor desonesto, desleal até ao limite do imaginável", aludindo ao desfecho do processo que levantou contra Todd McFarlane pela posse dos direitos que envolvem parte do franchise do personagem Miracleman, que tu próprio resgataste e ressuscitaste nos anos oitenta. Passados todos estes anos, o que é que tu gostaria de ver feito com essas histórias que escreveste e qual é a tua opinião sobre o processo-crime?
AM – Estou muito contente pelo Neil, como podes imaginar. Ainda bem que acabou, por que deve ter sido um pesadelo moroso. É sempre ridículo que alguém que não seja o criador venha exigir direitos sobre um trabalho e custa-me a entender essa falta de ética, ou melhor, compreendo-a, mas não posso pronunciar-me sobre ela sem dizer um ou dois palavrões. É algo embaraçoso, seboso até, que acaba por nos sujar a todos e que não oferece uma boa imagem da indústria da banda desenhada, por culpa dela própria, também, já que, infelizmente, casos semelhantes a este são frequentes. Penso que o Neil, chegando impoluto à outra margem desse lodaçal para onde irrefletidamente o quiseram arrastar, comportou-se como um verdadeiro super-herói.
Seria divertido ver reimpressões do Miracleman, para que os leitores não estivessem a pagar preços proibitivos por edições raras guardadas religiosamente desde a sua publicação original. Algum do material apresentado nessas histórias era realmente fantástico, como o escrito pelo Neil, por exemplo, e era bom que ele, em algum momento, tivesse oportunidade para lhe dar continuidade. Ele já me propôs há uns tempos uma parceria com vista à realização de uma conta em que todos os royalties derivados das vendas das reimpressões fossem guardados para serem distribuídos com justiça aos autores que trabalharam na série, como nós ou como o Mark Buckingham.
Parte desse
dinheiro podia ir, também, para o Comic Book Legal Defense
Fund e se houvesse a infelicidade de um ou outro filme aparecer o
dinheiro, os meus royalties pelo menos, poderiam ir diretamente para
esse fundo ou ficar no estúdio para serem partilhados pelos
criadores envolvidos no projeto, por que eu não quero receber
um único centavo de mais um filme adaptado de um dos meus
livros, nem desejo ver o meu nome associado a um empreendimento desse
género. O ideal era que não se fizessem mais filmes
inspirados em livros do Alan Moore. Em vez disso, era mais agradável
ver bons trabalhos serem reimpressos por um bom editor, sob uma boa
política editorial.
Isso seria uma excelente premissa para
o futuro e não digo isto motivado pela ganância de
ganhar mais uns tostões com o meu material antigo, mas com a
intenção de garantir que criadores como eu e como o
Neil não tenham de atravessar campos minados no percurso das
suas carreiras, por que, na verdade, temos assuntos muito mais
importantes com que nos preocupar.
