C.G.Jung entre a Alguimia e o Xamanismo
Laura Morandini & Ariell Chris. Tradução de Alberto Junior
Este é um artigo sobre C.G.Jung entre a Alguimia e o Xamanismo, após sua leitura conheça nossa loja virtual.
O homem em sua necessidade constante de progresso e avanço tecnológico,
com o passar do tempo foi pouco a pouco desprezando a forma de
pensamento simbólico e mítico, considerando-o como mera fantasia dos
povos primitivos assim como contraproducentes para sua evolução.
As
culturas dos povos antigos (Babilônios, Egípcios, Maias, entre outros)
desenvolveram um complexo sistema de pensamento abstrato/sagrado sendo
a Qabalah, a Alquimia, a Astrologia e O Tarot manifestações que
chegaram até nós, mas que ainda são consideradas pelos profanos puras
superstições. Este conhecimento universal se expressa fundamentalmente
através de símbolos que os iniciados estão obrigados a dominar já que
as imagens míticas outorgam a possibilidade de conexão com o atalho
sagrado e a memória da natureza, o qual resulta totalmente inacessível
por meio do pensamento lógico.
Dentro da história da Psicologia,
foi C. G. Jung quem recuperou estes conhecimentos herméticos e
traduzindo-os a uma linguagem psicológica, conseguiu introduzi-los na
cultura ocidental moderna, revalorizando-os. Sua missão esteve
encaminhada em compreender as manifestações do inconsciente: sonhos,
fantasias, visões, alucinações, que aparecendo de forma aparentemente
confusa, desconexa e caótica deviam encerrar um significado e um
sentido.
É por isso que ante as imagens que proporciona o mundo
obscuro se poderiam tomar duas atitudes básicas: ou as deixar passar
lentamente –o que significa que pouco a pouco seguirão apresentando
cada vez com maior força e até sob forma de sintoma físico- ou assumir
o compromisso de trabalhar o material apresentado e tentar lhe dar um
sentido e significado pessoal para integrá-lo à consciência. Foi esta a
opção de Jung, quem, a partir de sua própria experiência arquetípica
teceu sua teoria, amplificando-a através dos anos enquanto percorria e
vivia seu mito pessoal. Sem sabê-lo, Jung era guiado por forças
invisíveis a cumprir um rol xamânico.
Nas tribos animistas, o
sacerdote chamado chamán era quem possuía a chave para penetrar no
mundo dos espíritos e assim ser mediador entre a vontade dos Deuses e
os homens. Seu rol de historiador, curador, sábio conselheiro e chefe
espiritual não lhe era outorgado ao acaso. O candidato ao Chamán era
identificado por determinados sinais que ia mostrando ao longo de sua
infância e puberdade, que consistiam em sintomas físicos e psíquicos
particulares: isolamento, convulsões, visões terroríficas, enfermidades
físicas desconhecidas, linguagem incoerente, etc. Por volta dos 15 anos
se isolava o candidato em uma gruta e o submetia a uma rigorosa
iniciação, a qual consistia em submetê-lo a provas que implicavam a
confrontação com o mundo dos espíritos elementares da natureza. Nesta
luta cruenta se o candidato saía vitorioso os elementares o serviam
como aliados e intermediários com outros espíritos dotando-o de poderes
curadores, do dom para interpretar sonhos, a capacidade para viajar de
tempo e espaço, a magia para adotar formas animais diversas e o
conhecimento curador das ervas. Se fracassava na prova, seria vencido
por estas mesmas forças sob forma de morte ou enfermidade, loucura e
sofrimento constante. Terá que recalcar que este mesmo resultado era a
conseqüência de rechaçar a experiência iniciática por temor.
Em
sua autobiografia Mémórias, Sonhos e Reflexões, Jung descreve esta
mesma experiência através da qual entra em contato com os conteúdos de
seus sonhos e visões, a escuridão e riqueza de sua psique e o
enfrentamento com suas dúvidas e temores, devido às imagens que o
inconsciente lhe proporcionou durante os anos 1912-1920. Foram para o
Jung "a matéria prima de um trabalho que durou toda a vida". Precisava
achar a resposta às inquietações que as teorias e os dogmas não tinham
podido lhe oferecer.
Depois da ruptura com Freud, para Jung
começou um período de confusão, dava-se conta que não possuía um marco
de referência teórico no qual apoiar-se, por isso assumiu uma atitude
de tipo "vivencial". Trabalhava com seus pacientes sem seguir regras
preestabelecidas e tratava de ajudá-los a entender as imagens oníricas
que estes lhe proporcionavam através da intuição e seu próprio trabalho
pessoal de introspecção. Sentia que podia obter ajuda da mitologia para
acessar ao mundo do inconsciente, entretanto esta não lhe oferecia
maiores respostas já que ainda não tinha conseguido decifrar seu
próprio mito.
Em um sonho de 1912 Jung entra em contato com
imagens relacionadas com mortos e com a lenda alquímica do Hermes
Trimegisto, tenta dar significado ao sonho, mas se dá por vencido
pensando que o melhor é "continuar vivendo", tratando de emprestar
atenção às fantasias e imagens que se apresentariam. Outro sonho em que
apareciam tumbas de mortos que voltavam para a vida à medida que Jung
os observava, sugeria-lhe a existência de restos arcaicos inconscientes
que cobram vida através da psique; este conteúdo lhe serve
posteriormente para formular sua teoria sobre os arquétipos.
Todo
este material simbólico contribuído pelos sonhos Jung não conseguia
compreendê-lo e vencer assim o estado de desorientação, sentia uma
grande opressão interna e chegou a pensar que sofria algum tipo de
transtorno psíquico. Através de uma revisão dos acontecimentos
concretos de sua vida tentou encontrar alguma explicação a sua
confusão, mas sendo este caminho também infrutífero, decidiu
entregar-se por completo ao mundo do inconsciente.
O primeiro
que recordou foi um episódio de sua infância quando estava acostumado
construir casas e castelos com pedra e lama. Esta lembrança serve de
conector com sua parte mais genuína e criativa, por isso decidiu
reviver esse momento retomando esta atividade de "construção". Começou
a criar uma cidade na qual colocou uma igreja, mas notou que resistia a
colocar o altar. Um dia, caminhando perto do lago, encontrou uma
pequena pedra piramidal de cor vermelha, e ao vê-la compreendeu que
devia tratar do altar. No momento que a colocou em seu sítio, voltou
para sua mente a lembrança do falo subterrâneo que tinha sonhado de
menino, e sentiu um grande alívio. Parecia que o inconsciente o estava
guiando à compreensão daquelas coisas que no passado não tinham tido
resposta.
À medida que realizava esta atividade de
construção, sentia que seus pensamentos se esclareciam e que se
encontrava no caminho adequado para descobrir seu próprio mito. Desde
este momento Jung afirma que ao longo de sua vida, nos momentos de
escuridão, recorria à criatividade como uma porta de entrada aos
pensamentos e idéias que queria desenvolver.
No outono de 1913,
o sentimento de opressão interna parecia cobrar vida externamente
através de feitos concretos. Começaram a apresentar visões repetitivas
que profetizavam uma grande catástrofe de tipo coletivo onde
preponderavam conteúdos de morte e acontecimentos de sangue, enquanto
que uma voz interna lhe assegurava que tudo o que percebia era certo.
Jung não conseguia explicar estas visões e chegou a pensar que estava
psicótico. As visões duraram quase um ano, com intervalos de meses
entre umas e outras; todas aludiam ao mesmo contido. Em Agosto de 1914
começou a primeira guerra mundial. Nesse momento Jung compreendeu que
existia uma conexão entre sua experiência pessoal e a coletiva, por
isso sentiu a necessidade de explorar a fundo sua própria psique e
começou a anotar todas as fantasias que lhe chegavam em seus momentos
de jogo e construção, quando dava liberdade à sua criatividade.
Começa
um período no qual é invadido por toda classe de fantasias e imagens,
afirmava sentir-se indefeso ante este mundo difícil e incompreensível,
mais de uma vez intuía o amparo convencido de ter que obedecer a uma
"vontade superior". Recorria a exercícios de ioga para dominar suas
emoções e encontrar calma para assim inundar-se de novo em seu
enfrentamento com o inconsciente. Traduzia suas emoções em imagens, em
um intento pelas entender e não ser possuído por elas. Esta vivência
lhe serve de ferramenta para o processo terapêutico, quer dizer: não
ficar na emoção e sim chegar às imagens subjacentes.
Jung
concebia este encontro com o inconsciente como um experimento
científico sobre si mesmo, onde as maiores dificuldades radicavam no
domínio de seus sentimentos negativos assim como na incompreensão do
material que surgia de sua psique, o que lhe produzia resistência,
oposição e temor. Temia perder o controle e ser possuído pelos
conteúdos do inconsciente, mas ao mesmo tempo sabia que não podia
pretender que seus pacientes fizessem aquilo que ele não podia fazer
consigo mesmo. Apesar de considerar uma experiência penosa submeter-se
a isto, sentia que o destino o exigia. Obtinha as forças para
enfrentar-se nesta luta na idéia que não era só por seu bem, mas sim
pelo de seus pacientes. Por outro lado, a família e a atividade
profissional foram ingredientes indispensáveis para ajudar Jung em todo
este processo. Ambas lhe recordavam que era um homem comum. O mundo
real e cotidiano complementava seu estranho mundo interior e
representava a garantia de sua normalidade. Jung afirma que isto marcou
a diferença entre ele e Nietzsche, que tinha perdido o contato com a
realidade e vivia submerso em seu mundo interno caótico.
Surgiram
então duas imagens importantes. A primeira aludia a transformação,
morte e renascimento, enquanto que a segunda sugeria que devia deixar
de identificar-se com o herói, aniquilar sua atitude consciente e
apartar a vontade. Quer dizer, abandonar as demandas do Ego para poder
acessar à consciência transpessoal.
Em outra imagem encontrava
duas figuras bíblicas: Elías e Salomé - acompanhadas por uma serpente
negra- que afirmava que pertenciam à eternidade. Jung interpretou estas
figuras como a personificação de Logos e Eros. Entretanto sentia que
esta era uma explicação muito intelectual pelo que preferiu pensar que
eram a manifestação de processos profundos do inconsciente.
Posteriormente
apareceria em sonho outra figura chamada pelo Jung "Filemón". Era um
velho com chifres e asas de martín pescador, que levava consigo 4
chaves. Com ele, Jung conversava e Filemón lhe dizia coisas que lhe
eram desconhecidas, ensinou-lhe a "objetividade psíquica", o que ajudou
Jung a distinguir entre si mesmo e os objetos de seus pensamentos. Para
Jung esta imagem representava uma inteligência superior, um guru
espiritual que lhe comunicava pensamentos iluminados. Mais tarde surgiu
a imagem de "Ka" que representava uma espécie de demônio da terra, um
espírito da natureza, que em certa medida complementava a figura do
Filemón.
Enquanto Jung anotava suas fantasias, perguntava-se o
que era em realidade o que estava fazendo, já que certamente não se
tratava de ciência. Uma voz feminina que provinha de seu interior -que
Jung associava com a voz de uma de seus pacientes- respondeu-lhe que
"era arte". Ele se opunha a pensar que fosse arte, entretanto deixou
fluir esta "mulher interior", embora se sentisse assustado ante esta
presença desconhecida. Chamou-a "anima", referindo-se à figura interna
feminina arquetípica do homem, enquanto que o "animus" representava a
figura masculina. Descreveu os aspectos negativos da "anima" como
sedução, astúcia e ambigüidade mas com a qualidade de ser a mediadora
entre a consciência e o inconsciente. Jung afirma que durante anos
serve-se de sua "anima" para acessar aos conteúdos de seu inconsciente,
enquanto que em sua velhice já não recorria a ela porque conseguia
captar estes conteúdos de forma direta.
Através de sua "anima",
Jung conseguia estabelecer um diálogo com o inconsciente, acessar aos
conteúdos do mesmo e diminuir a autonomia que exercia sobre sua pessoa.
O poder que tinha as imagens voltou menos violento. Já não havia um
salto do inconsciente para a consciência, mas sim estabelecia um
intercâmbio dinâmico criativo.
Estas fantasias Jung as escreveu
no "Livro Negro" e posteriormente no "Livro Vermelho", no qual se
encontram seus mandalas e as ilustrações realizadas por ele mesmo.
Entretanto sentia que não conseguia pôr em palavras aquilo que
experimentava, por isso preferiu dedicar-se em profundidade à
compreensão das imagens para assim tirar conclusões concretas das
mensagens que o inconsciente lhe sugeria. Esta foi a tarefa de sua
vida, já que sentia uma responsabilidade moral. Afirmava que o homem
não pode limitar-se a ver surgir as imagens e surpreender-se ante elas,
deve compreendê-las porque de outro modo está condenado a viver de
forma incompleta. "É grande a responsabilidade humana ante as imagens
do inconsciente".
Em 1916 Jung experimenta uma nova visão: sua
alma voava fora dele, o que interpretou como a possibilidade de
conectar-se com a terra dos mortos, dos antepassados ou do inconsciente
coletivo. Pouco depois desta visão percebia a presença de espíritos que
habitavam a casa -também seus filhos os percebiam-, até que uma tarde
os espíritos tocaram o timbre gritando "Retornamos de Jerusalém, onde
não encontramos aquilo que procurávamos". Jung então escreve durante
três noites os "Septem Sermones ad Mortuos" e posteriormente os
espíritos desapareceram. Afirma que esta experiência devia ser tomada
pelo que foi: a manifestação externa de um estado emotivo favorável à
aparição de fenômenos parapsicológicos. A evasão de sua alma o tinha
conectado com os espíritos. Estes escritos, que são diálogos com os
mortos, Jung os considera uma preparação daquilo que devia comunicar ao
mundo sobre o inconsciente e seus conteúdos.
Neste período Jung
se encontra frente a uma encruzilhada: ou seguir aquilo que lhe ditava
seu mundo interno, ou continuar com sua profissão acadêmica.
Considerava que não podia seguir ensinando aos estudantes quando em seu
interior havia só dúvidas. Decide então deixar seu posto como docente
na universidade porque "sentia que estava ocorrendo algo grandioso", e
ele precisava descobri-lo ou entendê-lo antes de poder compartilhá-lo
publicamente. Como conseqüência desta decisão, inicia um período de
solidão já que não pode compartilhar seus pensamentos com outros: não o
teriam compreendido. Nem sequer ele conseguia entender as contradições
entre seu mundo interno e o externo. Só quando pudesse demonstrar que
os conteúdos psíquicos eram reais e coletivos, então, nesse momento
poderia comunicar sua nova visão sobre a psique. O risco era grande, já
que se não o compreendiam ficaria totalmente isolado.
Entre os
anos de 1918-19 começou a sair da escuridão em que se achava, e isto o
atribuiu a dois fatores: por um lado, distanciou-se se a voz feminina
que queria convencê-lo que suas fantasias eram de valor artístico e por
outro, começou a compreender os mandalas. Todos os dias desenhava
pequenas figuras circulares através das quais observava suas
transformações psíquicas. Considerava-as a totalidade do "Self". À
medida que as desenhava se expor a finalidade desta atividade, mas
sabia que não podia compreender o significado a priori, a não ser
através do processo em si. Dava-se conta que o desenvolvimento da
psique não era um processo linear, mas circular, que "tudo tende para o
centro". Esta certeza lhe permitiu encontrar paz interior e
estabilidade. Era como se ele mesmo estivesse encontrando seu próprio
centro.
Em 1927 teve um sonho que confirmava esta idéia e o
representou através de um mandala que titulou "Janela para a
Eternidade". No sonho Jung se encontrava em uma cidade de forma
circular, em um ambiente nublado e escuro, em companhia de alguns
suíços. Apesar deste ambiente opaco, no centro da cidade havia um lugar
com uma pequena ilha no centro onde se achava uma árvore de magnólias
que tinha luz própria. Só Jung tinha notado esta presença de
luminosidade, e então compreendeu que essa era a meta. Respeito a este
sonho Jung afirma " O centro é a meta e tudo se dirige para o centro.
Graças a este sonho compreendi que o "Self" é o princípio e o arquétipo
da orientação e do significado... reconhecê-lo para mim quis dizer ter
a intuição inicial de meu próprio mito”.
Sem esta imagem teria
perdido a orientação e abandonado o caminho que tinha iniciado, depois
de tanta escuridão tal imagem devia conceber-se como um "ato de graça",
como a manifestação do numinoso.
No ano seguinte desenhou outro
mandala que tinha um castelo de ouro no centro, a forma e as cores lhe
sugeriam um estilo chinês. De maneira sincrônica R. Wilhelm lhe enviava
uma carta com um manuscrito de um tratado de alquimia taoísta titulado
"O mistério da flor de ouro". Esta coincidência ajudou Jung sair de sua
solidão, já que lhe dava a esperança que existiam pessoas com as quais
podia ter afinidade e compartilhar suas idéias.
Para Jung estes
foram os anos mais importantes de sua vida: sem cortar os laços com sua
realidade de homem comum e apesar da solidão, correu o risco de
inundar-se em sua própria escuridão tratando de lhe encontrar um
significado e uma finalidade a tudo aquilo que experimentava. Assumiu a
responsabilidade de analisar e compreender o material que o
inconsciente lhe proporcionava e foi em busca de seu próprio mito.
