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Confins do Éden

Manual do Satanista

Este é um artigo sobre Confins do Éden, após sua leitura conheça nossa loja virtual.

- a natureza ofídica do satanista -

'Tu és mau, portanto eu sou bom.' Nesta fórmula,é o escravo que fala." -Gilles Deleuze

“Indignação moral é inveja usando uma auréola.”n–        H. G. Wells

“O que nós chamamos de moral não passa de um empreendimento  desesperado de nossos semelhantes contra a ordem universal, que é a luta, a carnificina e o jogo cegos de forças contrárias.” – Anátole France, Os Deuses Têm Sede, VI

Sim, sou satanista, mas sou por que quero, porque encontrei uma base de idéias e ideais que só achei fazendo parte deste seleto grupo. Sou satanista e reconheço que esta é uma escolha minha, e não dependo portanto de ninguém para garantir isso. Sou responsável por meus próprios atos como todos somos, a diferença é que, nós satanistas, conseguimos reconhecer isso. Responsabilidade aos responsáveis, já dizia LaVey. O satanista se distingue dos demais por uma mentalidade própria que buscarei ilustrar retomando uma pequena estória, aquela do fruto proibido bíblico. Usarei o conto de modo metafórico como ela mesmo, a bíblia, foi em parte escrita.

Aliás, foi esse o grande erro, a história mostrou que os cristãos se tornaram um grupo que levou seus mitos ao pé da letra. A apologética cristã estava verdadeiramente preocupada em converter os outros e provar-se como uma verdade universal. Toda mitologia anterior, greco-romana, babilônia, ou egípcia, jamais procurou afirmar seus arquétipos como uma verdade histórica incontestável. Os povos respeitavam seus deuses e não era necessário trazê-los para guerrear em nosso passado ou futuro. Os deuses dos homens eram antes parte do orgulho de um povo e viviam em um eterno presente independente da linearidade humana. Voltemos entretanto ao mito bíblico: os participantes são três: Adão, a Serpente, e os outros animais. O elemento central é o fruto proibido e o prêmio é cheio de armadilhas: o conhecimento do bem, e do mal.

Comecemos com Adão. Contrariando as ordens de seu suposto criador ele se delicia com o suco do fruto proibido. Adão era um macaco, mas ao morder o fruto torna-se humano. Adão acha agora que conhece todo o cosmos e por isso mesmo se atreve a dar nome aos demais animais. Ele compartilha do fruto com sua amada, que aliás foi quem comeu o fruto primeiro e sinceramente ambos acreditam conhecer o bem e o mal. Muitas vezes eles discordam do que dizem um ao outro, talvez porque tenham comido partes diferentes do mesmo fruto.

Eles notaram que o fruto tem uma primeira camada doce, mas uma polpa sensivelmente azeda. O gosto do azedo os faz rejeitar uma parte do fruto. Cospem-no no chão e constatam que a polpa é de uma feiúra inigualável e de um fedor sem igual. Os outros animais não notam o feio pedaço de fruta mastigado e nem sentem o seu fedor. Adão e Eva ao contrário não podem suportar e o enterram no chão. Não admitem que tal fruto estivesse em suas bocas. Alguém vai ter que ser culpado por este sujeira. Ardilmente a culpa é lançada à serpente. Para se justificar ao seu senhor, ambos os escravos lançam na serpente toda a parte do fruto que lhes é repugnante. Adão e Eva tornaram-se o pai e a mãe de toda a humanidade que, como eles, precisa de alguém ou de alguma coisa a quem possa colocar a culpa de tudo aquilo que sua moral classifique como mal.


Um débil par de tolos foi tudo o que Adão e Eva provaram ser, não tanto por comer o fruto mas por não comê-lo por completo e culpar a serpente pelo gosto azedo e por sua fedentina. Se o tivessem comido por completo veriam que a parte ácida neutralizaria a parte base, que a parte quente esquentaria a parte fria e que a parte úmida molharia  parte seca e que o fruto consumiria a si próprio.

Nosso segundo personagem é um simples animal do Éden, no caso um pacato boi. Ele admira a coragem de Adão em morder o fruto do conhecimento do bem e do mal, mas honestamente sabe que jamais faria o mesmo. Ele adora o jardim em que vive, esta ilusão lhe dá tanta segurança, que jamais a abandonaria. A ignorância lhe é acolhedora e por isso é eternamente submisso aos nomes que Adão e Eva lhes dá. O boi se satisfaz com sua própria mediocridade e prefere comer grama a morder o fruto.

O boi  será o pai de toda uma outra geração, tão comum quando a geração de Adão . Claro pacato totalmente passivo, mas comum. Ele não quer reconhecer quem é pois é melhor não arriscar saber o que há do outro lado do fruto proibido. Esse covarde auto-ilusório prefere viver no conforto da estupidez a se arriscar postos mais elevados e assim se esvazia toda a Vontade de Potência.

Mas acautelem-se irmãos temos agora uma espécie que vale a pena, somos Nós: A serpente. Nós conhecemos o bem e o mal e por conhecê-los não negamos nenhum lado, não somos covardes a ponto de negar a própria soberania e morder o fruto, nem hipócrita ao extremo de necessitar de alguém em quem jogar a culpa, somos totalmente responsáveis, somos os verdadeiros conhecedores do bem e do mal. E os conhecendo sabemos o quão pueris são estes conceitos. Não há gosto azedo demais para nós.

Tudo o que Adão e Eva conseguiram ao cuspir o fruto no chão e culpar a serpente por suas faltas foi tornarem-se um casal moralista de macacos. Tornaram-se de fato "imagem e semelhança de Deus", não do Deus Verdadeiro, mas do Deus que os tem como escravos. Afinal o deus do éden é um deus moralista e portanto um falso deus de certos e errados, que lança pragas naqueles que o contrariam. Bem e Mal são os dois lados de uma moeda que nunca esteve em circulação entre os deuses, pois juízos maniqueístas não cabem à divindade.

O satanista encontra-se articulado com o Universo e não tem qualquer necessidade de viver segundo valores estranhos como estes. Afinal o Universo é igualmente complacente com santos e assassinos, o cosmos é tão indiferente a conquista dos tiranos quanto aos choros de um bebê. Um rei ou um mendigo, um senhor ou um escravo todos são poeira cósmica que estarão invariavelmente sujeitos a ter sua matéria transformada novamente pelo processo da velhice e da morte.

Como serpentes que somos, somos divindades além dos juízos morais, pois a própria Natureza os desconhece. Se a Natureza nos dá um fruto, certamente não é o fruto do “bem e do mal”, pois tal alimento equivale a um simples conhecimento tribal daquilo que seja certo ou errado. Um conhecimento que é temporal e geográfico, não é um conhecimento digno de uma divindade.


A serpente encontrará a igualmente emancipada Lilith nos confins do Éden e dará origem a uma geração toda distinta de homens e mulheres que surgirão em todas as épocas e que viverão em articulação com o Verdadeiro Deus que está além de toda a moral. Como filhos das serpentes somos animais astutos que mão se prendem em determinações passageiras, pretensiosamente candidatas a eternidade pois sabemos a todo o momento trocar de pele em um eterno tornar-se.




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