Indulgência, a Verdadeira Vontade
Manual do Satanista
Este é um artigo sobre Indulgência, a Verdadeira Vontade, após sua leitura conheça nossa loja virtual.
INDULGÊNCIA, O CAMINHO PARA A VERDADEIRA VONTADE
- o desvelar do Self através da compreensão íntima -
"Quem anda duzentos metros sem vontade anda seguindo o próprio funeral e vestindo a própria mortalha." - Walt Whitman
“Faze o que tu queres há de ser toda a Lei” – Aleister Crowley
“Satã representa indulgência, ao invés de abstinência! – Anton Szandor LaVey
No seu primeiro livro editado em 1966, Anton LaVey, pai do Satanismo moderno, declara que "Satã representa indulgência no lugar de abstinência" e mais adiante dedica um capítulo inteiro a diferenciar indulgência de compulsão. Tanta tinta e papel sendo gastos num tópico nos mostram a importância do mesmo. Proponho então que me acompanhe numa exploração mais profunda destes termos. O que é Abstinência, Compulsão e Indulgência? E por que o Satanismo moderno evidência somente este último? Estas são as perguntas que este ensaio visa responder. Entretanto, alguns conceitos chaves devem ser discutidos de ante mão.
Todo o Satanismo moderno funda-se em dois postulados:
1 - O ser humano é seu próprio deus;
2 – A sua Verdadeira Vontade é a manifestação da sua divindade.
Dizer que o homem é seu próprio deus é dizer que ele é seu único senhor e não deve se ajoelhar diante de nenhuma vaca sagrada ou deuses externos. Na Era Satânica cada ser é o ser mais importante de seu próprio microcosmo. Praticamente todas as revoluções de pensamento que falharam até agora falharam exatamente por tentarem ser revoluções externas e não internas. Quando cada um se reconhecer como seu próprio deus e deixar de tentar mudar o mundo e as outras pessoas para trabalhar no seu próprio universo, então algo será conseguido. Pois como ensina a Thelema: estrelas que seguem sua própria órbita não agridem a órbita das demais, a não ser pelas influências de sua própria gravidade.
Quando todos realmente tomarem consciência de sua divindade, o ser humano passará a aceitar-se por completo, sem renegar nenhum de seus aspectos ao calabouço mental. A luta contra o Ego dará lugar ao desvelar de nosso Eu superior. O indivíduo então simplesmente pára de se deixar manipular e começa a pensar por si mesmo. Descobre então que tem vontade própria e futuramente vive em sua Verdadeira Vontade. Deixemos então os antigos grilhões abandonados nas ruínas de templos de deuses já mortos, deixemos de ser escravos dos outros e passemos a ser senhores de nós mesmos!
Descobrir a própria vontade, livre de toda a amarra e limitação, escravidão psicológica, mentalidade de gado ou estupidez bovina, é o primeiro e mais importante passo que alguém pode dar se quiser sobreviver ao Apocalipse. E quando isso acontece a Divindade expressa-se no Macrocosmo assim como já faz no Microcosmo e o ser passa a brilhar como a estrela que é. Sem pressa e sem atraso. Sem forçar e sem relaxar, como a água de um rio.
Tendo-se entendido estes conceitos básicos, podemos definir melhor, os termos propostos no início deste ensaio. Comecemos pela Abstinência. Abstinência é para os satanistas a privação voluntária e imposta, é não fazer algo que a vontade exige. Nesta definição encaixa-se desde o Padre que reprime seus anseios escondidos sob sua batina, passando pela garotinha que não se diverte como quer porque a sociedade em que vive diz que karate não é esporte de meninas, ou mesmo o senhor que não vive os prazeres da vida por ter sido levado a acreditar que já passou da idade de fazer certas coisas.
Quando nos abstemos reprimimos nossa vontade e trancafiamos a nós mesmos em uma prisão onde somos ambos carrasco e condenado. Jung nos mostrou que tudo o que é reprimido em nossa mente explode em conseqüências incontroláveis. Todo deus renegado se converte em um demônio. A natureza se vinga, essa é uma de suas leis. E a vingança pela abstinência se traduz em compulsão.
Compulsão no nosso contexto é fazer algo mesmo não sendo a sua vontade, é o extremo oposto da abstinência, sendo ambas igualmente imundas para a divindade pessoal. As vontades reprimidas nos atos de abstinência explodem descontroladamente em Compulsão. O estupro, as explosões de raiva aos que não merecem, o afogar-se na própria comida, a fuga para as drogas e até mesmo a depressão são roupagens freqüentes da compulsão. O que ocorre é semelhante a uma situação de afogamento: imagine que prenderam a sua cabeça embaixo da água por um tempo considerável. Quando te soltam você então vai subir e puxar o máximo de ar no lugar de respirar normalmente, da mesma forma, sua vontade reprimida se manifestará em uma forma incontrolável e muitas vezes prejudiciais a ti. Outra metáfora análoga é a da criança que proibida de comer doces se enche de biscoitos até ficar doente, na primeira oportunidade. Por não agir de forma coerente em sua vontade, explosões de comportamento ocorrem numa clássica tentativa de compensação. A compulsão também ocorre quando nos deixamos levar pelos outros e/ou tomamos a vontade alheia como nossa. Por exemplo, quando milhares de pessoas são levadas, dia após dia, a sentar-se na frente da T.V para ver novela, quando ao atingir a meia idade alguém se culpa por ainda não ter casado, ou quando o adolescente pensa que têm algo errado com ele quando não age como os seus amigos. Existem muitos outros exemplos de compulsão e o leitor certamente encontrará outras ilustrações se observar bem o mundo a sua volta.
Resumindo abstinência é deixar de fazer algo que lhe seria coerente. Compulsão é fazer algo incoerente para com a sua vontade. Na maioria das vezes abstinência é imposta pela sociedade e a compulsão uma resposta desmedida do próprio corpo contra esta imposição. Esta é a sabedoria grega contida na relação Hybris/ Nemesis. Hybris é a desmedida humana e Nemesis o ciúme divino punição da injustiça praticada. Quando o homem ultrapassava o métron, a medida interior definida pelos próprios deuses, que de fato vivem e viviam em nossa mente, então arrisca-se a trair seus desígnios para agradar aos outros e comete Hybris. O castigo vem do Olimpo tão rápido como um raio e até a deusa cega toma conta do infeliz mortal que caminha então irracionalmente para o penhasco mais próximo.
A Verdadeira Vontade não tem nada haver com compulsão muito menos abstinência, pois é a medida verdadeira de toda a estrela. O desejo advindo da compulsão é um risível capricho do id, o comportamento oriundo da abstinência é mera sujeição á sociedade. Em contrapartida, indulgência é a sublime manifestação de Baphomet (Logos/Cosmos) no indivíduo. A indulgência é a articulação de quando as coisas acontecem no momento em que os indivíduos se articulam ao movimento natural das coisas, como um animal do campo ou um bebê. Indulgência é a palavra da Lei, da criança filha de Had e Nu, porque “A palavra do pecado é Restrição.” I, 41.
Indulgência é o reconhecimento da Vontade Verdadeira e sua livre consecução. É fazer o que se ama e amar o que se faz. Os amadores, no significado original da palavra são indulgentes no tocante de fazerem aquilo que amam, por isso eu digo; Seja amador mesmo quando é profissional. Indulgência é a realização da vontade pessoal, livre da opinião alheia.
Se você faz algo porque todos fazem, porque é "normal" ou esperado como atitude certa, então você traiu a si mesmo, trocou o a glória do Olimpo para chafurdar na lama. E se você não faz algo, porque têm vergonha ou medo de reprovação, então também se traiu, negou sua coroa e trocou por um par de algemas. Em ambos os casos negou seu próprio estado de divindade e se juntou ao lado de idiotas que, dia após dia, se curvam inutilmente uns para os outros.
Algumas pessoas podem dizer agora que atos de abstinência e compulsão são inegavelmente necessários para a realização da vontade. Ora, desde que Lavey assinou sua bíblia a falta de perspectiva é um pecado satânico! O que aparentemente é um ato de abstinência ou compulsão revela-se como um verdadeiro proceder indulgente.
O soldado que se abstêm de responder as provocações de seu superior, pode na verdade estar resistindo a compulsão de um ato que poderia valer-lhe a patente que busca e igualar a zero suas chances de galgar um posto hierárquico que sua vontade atual lhe pede. Da mesma forma o indivíduo que deixa de lado os exercícios corporais que se propôs a fazer, pode não estar sendo indulgente, mas por compulsão se abster de ter o corpo que no fundo deseja ter. Ambos estão sentindo em seu interior que estão fazendo a coisa certa.
A questão toda está em responder uma simples pergunta "Quem é que manda em você?" Se realmente você que deseja ser general, coçar a perna, viajar para Cuba, ter um corpo belo, tirar um diploma de veterinária, cortar a grama ou tomar banho de roupa então não desista e lute pela realização de sua Vontade. Se pelo contrário estes desejos são exigências externas e você vai atrás deles, mesmo se tudo o que sua verdadeira vontade exigia era uma casa no campo ou um sorvete de hortelã, então está na hora de rever as coisas. Realiza a tua vontade, esta é nossa única lei.
