siga os tijolos amarelos: Home > Artigos > Satanismo > Livros Satânicos > Manual do Satanista > O Retorno dos Bacanais

O Retorno dos Bacanais

Manual do Satanista

Este é um artigo sobre O Retorno dos Bacanais, após sua leitura conheça nossa loja virtual.

-a magia como um teatro psicológico-


"O palco não é meramente o ponto de encontro de todas as artes, mas é também um retorno à arte da vida.”- Oscar Wilde

“Um dramaturgo é alguém que acredita que um puro evento, uma ação envolvendo seres humanos, é mais cativante do que qualquer comentário que pode ser feito sobre isso.” - Thorton Wilder

“Você só é você mesmo, quando ninguém esta olhando”. - Suzan-Lori Parks's 

 
Sob muitos aspectos a arte ritual funciona exatamente como a arte teatral. É necessária uma boa preparação tanto dos atores como de toda a estrutura do palco para que o público seja tocado. Nos rituais satânicos são os próprios praticantes que precisam ser atingidos pelas cenas produzidas. Na magia satânica os satanistas são todos atores e platéia. Assim, podemos afirmar que no fundo as cerimônias ritualísticas formam um verdadeiro teatro psicológico. Na câmara ritual a “quarta parede”[1] proposta por André Antoine realmente existe, não sendo somente um artifício mental para incrementar a encenação.

Como um dos primeiros teóricos da dramaturgia Antonie ensinava que  a vida deve ser vivida no palco, e não simplesmente encenada. Antonie utilizava todos os recursos disponíveis em sua época para criar um ambiente convincente seja trabalhando fortemente no cenário, seja realizando estudos aprofundados sobre as personagens e sobre o tema a ser debatido. Ele utilizava de todos os artifícios possíveis, incluindo as ferramentas tecnológicas de seu tempo como os rústicos efeitos sonoros de ambientação e a recém inventada iluminação artificial elétrica para produção de efeitos especiais. O objetivo era tornar a peça o mais realista possível promovendo uma carga dramática ideal.

De fato, o teatro surgiu primeiramente como uma cerimônia mágica e religiosa, não é portanto de se estranhar que ela retorne hoje a suas origens. Na antiga Grécia celebrações e cultos aos antigos deuses reuniam pessoas que realizavam festas, agradeciam aos deuses e faziam oferendas e sacrifícios a eles. A festa celebrada a Dionísio, o deus do vinho, posteriormente ligado pela igreja como sendo o próprio demônio era especialmente popular. Nesta celebração os participantes das festividades se embriagavam de vinho e começavam a dançar e cantar freneticamente até cair desfalecidos, durante o processo, havia o costume de se sacrificar um bode ao deus.

A relação do bode com Dionísio é bastante complexa: este é o animal sagrado deste deus porque conta a mitologia que esta foi a última das metamorfoses dele enquanto fugia dos Titãs. Na forma de bode, Dionísio foi devorado por seus adversários, mas ressuscitou na forma de um bode divino. Somado a isso temos o fato de que os adeptos do deus do vinho se vestiam de Sátiros, cobrindo-se com a pele e os chifres de bodes. Este é outro dos motivos da figura do bode figurar no símbolo de Baphomet, como sendo uma retomada as raízes da celebração mágica e teatral pagã.

Em homenagem a Dionísio, deus da alegria, todo ano em Atenas se realizavam os bacanais, Baco sendo outro nome de Dionísio; seus celebrantes já não eram mais homens e mulheres mas sim Sátiros, Ninfas e o próprio Dionísio. Todos bebiam, cantavam, recitavam e dançavam vertiginosamente enquanto lançavam seus desejos e agradecimentos aos deuses. Embriagados por fim todos caíam ao chão. Este era o estado de "ékstasis", com o qual superavam sua condição humana e se uniam ao divino. É esse mesmo entusiasmo que deve tomar o praticante durante os rituais de hoje em dia. A palavra entusiasmo quer dizer literalmente ter deus dentro de si. Os gregos celebravam a vida com o deus do prazer e da alegria de seu tempo: Dionísio. Nós celebramos a vida com o deus do prazer e da alegria de nossa era: Satã.

No começo as celebrações Baco reuniam poucas pessoas ao redor do Bode. Mas com o tempo  tornaram-se tão populares que nem mesmo era possível organizar uma roda ao redor do animal, tamanho o número de pessoas que compareciam. Surgiu então a  divisão entre palco e platéia e gradualmente o ritual separou-se entre atores e público. Daí em diante o teatro tornou-se cada vez menos sagrado e passou a tomar o seu próprio rumo de evolução. O ritual satânico existe justamente para retomar esta qualidade perdida. Na Era Satânica, o teatro volta a ser religioso e a religião volta a ser teatral. Para que isso ocorra, faz-se necessária uma verdadeira preparação do mesmo antes de se engajar em sua execução.

Nos rituais coletivos sempre existe um sacerdote que é ao mesmo tempo diretor e ator, este é conhecido como o Mestre do Templo e tem um papel essencialmente organizacional. O mestre do templo guia os demais praticantes nas diferentes etapas da cerimônia, recitando algumas palavras para serem repetidas por todos, ou dando deixas para a ação dos demais entes que participam do rito. O Mestre do Templo é além disso o líder e o porta-voz na câmara ritual.

Os demais participantes do ritual são chamados de Irmãos ou Irmãs do Templo. Estes devem estar sempre atentos ao Mestre do Templo, respondendo às suas deixas, repetindo as palavras que forem instigadas à repetição e tomando parte das diferentes etapas do ritual. Por vezes será exigido dos participantes que respondam coletivamente ao Mestre do Templo com gritos de raiva, risadas de deboche, sorrisos maliciosos ou cantos de grupo; outras vezes os irmãos do templo terão papeis especiais e atuações próprias, mas isso dependerá da organização de cada grupo.

Nos rituais individuais o praticante será ao mesmo tempo Mestre e Irmão do Templo e estará para todos os efeitos acompanhado somente da presença diabólica que invocar. Neste caso caberá a você empreender sozinho cada etapa do ritual, incluindo o preparo para o mesmo, a recitação e a vivência de todo o direcionamento emocional.

Exatamente como em uma peça de teatro, é preciso haver um equilíbrio entre ensaio e livre interpretação na magia satânica. Os rituais são organizados em diferentes fazes, ou cenas se preferir, que devem ser respeitadas para que haja um mínimo de coerência naquilo que se está sendo feito. Por este motivo é recomendado que o praticante estude e ensaie o ritual antes de erguer o altar e entrar no templo.  Não é preciso conhecer de cor cada palavra a ser dita, mas é necessário que esteja preparado o bastante para executar a prática sem interromper a si mesmo nem ter que consultar o roteiro. Não há nenhum problema se na hora de recitar certas partes você optar por ler um pergaminho ou um livro de invocações. No entanto, ter que parar tudo porque não lembra a ordem dos príncipes infernais ou se deve ou não acender uma vela é algo que é  extremamente prejudicial pois quebra o direcionamento emocional e a formação da imagem ritual. Lembre-se do primeiro mote do teatro: o espetáculo não pode parar.

Assim fica fácil perceber que a magia satânica é verdadeiramente uma arte e como arte pode ser aprimorada pela técnica e elevada pela criatividade. Um ritual que se faz em grupo existe para impressionar o grupo e criar uma atmosfera mental adequada à realização dos desejos. Já um ritual individual é feito para impressionar somente a você mesmo. Respeite a sua platéia.



[1] André Antonie, um dos principais teóricos da dramaturgia propôs a idéia da Quarta Parede, que é uma linha de divisão conceitual que deveria separar a platéia do palco e os atores dos espectadores. Ela permitiria que os personagens agissem com maior naturalidade a cena, por isso Antonie constantemente mandava o ator ignorar o público e fechar o palco com uma “quarta parede” para que pudesse se integrar ao máximo com a peça.




Document Actions