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Sexto Círculo Infernal - A Tumba da Credulidade

Manual do Satanista

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“Virgílio continuou a falar, mas, de repente, minha atenção se voltou para o céu onde vi três Fúrias infernais. Eram figuras femininas, ungidas de sangue e com serpentes ferozes no lugar dos cabelos. O mestre, que já conhecia as escravas de Proserpina, me apontou: - Olha! São as Erínias ferozes! Aquela é Megera, à esquerda, e aquela que chora à direita é Aleto. Tesífone é a do meio. Elas gritavam alto e com as unhas rasgavam o peito. Eu fui para junto do poeta, tomado pelo medo. - Vem Medusa, vem! - gritavam - vamos transformá-lo em pedra! Que pena que deixamos Teseu escapar! - Fecha os olhos e volta-te! - gritou Virgílio.” - A Divina Comédia, Inferno, Canto IX


Seu caminho é abruptamente interrompido por gritos que vêem do horizonte e chegam cada vez mais perto. Subitamente estás às margens do sexto circulo infernal onde o primeiro impulso é o da fuga desesperada e onde as antigas convicções são denunciadas como grandes farsas, mentiras e enganos que devem ser definitivamente deixados para trás.

As Eríneas Ferozes, as Fúrias do Inferno serão o teu principal obstáculo. Megera, Aleto e Tesífone recepcionam todo o visitante abrindo seus peitos com as próprias unhas e expondo seus corações para que nada mais seja oculto. Elas voam alto e gritam ainda mais alto verdades que poucos visitantes estão prontos para ouvir.  Suas faces são a face da verdade e por isso olhar para a górgona é arriscar-se a trocar a mentira pela pedra sólida, e tendo se tornado pedra nunca mais voltar ao mundo de onde se veio.

Por isso o conselho dos covardes é o de fechar os olhos ou olhar na direção do pântano, onde a bruma é mais espessa e onde o rosto de Medusa volta a ser mistério e sua voz insuportável volta a ser apenas um sussurro. Se não tens medos em converter-se em rocha encare a Medusa nos olhos e entre no forte da incredulidade como um convidado de honra. No pântano onde se refugiam os covardes também é possível entrar na cidade dos hereges, mas corre-se o risco de com a visão limitada cair dentro das muitas covas abertas que espalham-se pelo chão.

Estas sepulturas estão repletas de hereges e de seus seguidores. Em cada uma dessas tumbas amontoam-se os membros de uma determinada seita que ousou cobrir a realidade com suas invenções e inverdades. Todos são fugitivos dos gritos das Fúrias e os fundadores das religiões, os enganadores, são esmagados no fundo de cada tumba pela multidão de enganados e crédulos que os seguiram. Todos eles são torturados pelo cruel fogo infernal.

Aos corajosos as covas são somente uma atração desta cidade. Aqui encontrarão ditosos cidadãos como Epicuro, Spinosa e tantos outros virtuosos o suficiente para reconhecer o mundo como ele é, e para viver conforme as leis daquilo que é real sem refugiar-se em explicações espirituais. Nos templos desta terra os gritos das Eríneas são explicados e compreendidos. Passe um tempo por aqui antes de prosseguir e saiba porque nem todos que entram no sexto círculo podem continuar a viajem. Só há uma porta para se entrar aqui. Se houver mais de uma é porque ambas dão direto para o fundo de alguma cova. É hora de derrubarmos do trono o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Um a um; sem medo e sem dó. Até que não sobre ninguém senão o deus verdadeiro. Na morada da verdade a única heresia é a credulidade.




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