Terceiro Círculo Infernal - O Pecado nosso de cada dia
Manual do Satanista
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“Quando Cérbero nos viu, abriu suas três bocas e exibiu suas presas, rangendo e estremecendo diante de nós. Meu mestre, cauteloso, encheu suas mãos de terra e atirou nas goelas do cão danado. O monstro, guloso, não hesitou em engolir a terra, se emperrou com ela e ficou em silêncio, como um cão faminto que se ocupa com o seu osso.” - A Divina Comédia, Inferno, Canto VI
Desperte novamente peregrino, nossa viajem deve prosseguir. Após a catarse do último circulo infernal em que estivemos é hora de descermos ainda mais fundo nos prazeres da carne. Em nossa última parada conheceu aqueles que explodem nas diversas formas de êxtase mas aqui residem heróis ainda mais corajosos que fazem deste mesmo êxtase um contínuo em seu cotidiano. A emancipação não é aqui somente obtida com festa e farra, mas cada movimento, cada palavra e cada ação são direcionados para a satisfação pessoal do caminho da matéria hora à hora, dia a dia por toda a vida.
Não se enganam aqueles que dizem que esta é a terra dos gulosos, pois aqui estão aqueles que verdadeiramente amam seu estado físico e que continuamente se entregam a ele. Aqui o prazer é ainda mais pessoal, e individual e seus moradores se atiram sozinhos na profana mistura de terra e água para satisfazerem a suas próprias necessidades sob a fria chuva prateada do local.
É Cérbero, o cão de três cabeças, o guardião dessas terras subterrâneas e só aqueles que tiverem a coragem de entender que este mostro de apetite insaciável sempre esteve dentro de cada coração é que poderá então seguir para os próximos círculos infernais. Mas que fique claro aos incautos! Como já sabiam os gregos, Cérbero deixa qualquer um com coragem entrar mas não deixa quem entrou sair. Nunca. Afinal quando se torna o mestre do próprio prazer e se livra das amarras passadas, tudo fora disso se parece vazio e você não terá outro caminho para seguir além dos níveis mais baixos do inferno.
Eis então a terra de Ciacco, nobre florentino que nunca freou seu apetite carnal e de todos os outros com coragem os bastante para decidirem por si próprios o que deveriam ou não fazer. Sobre este solo os valores anteriores são invertidos para atingirem seu estado original. O vicio revela-se como a virtude que realmente é, e a virtude admite seu próprio erro. Descobre-se a luz na escuridão e aquilo que antes brilhava se revela opaco e negro como um pedaço de carvão. Entre então, viajante, nesta terra onde existe gula e apego à carne, onde pecado não é mais uma blasfêmia assumida, mas sim o estado natural das coisas.
