Fenômenos Estranhos
José Augusto Mourão
Este é um artigo sobre Fenômenos Estranhos, após sua leitura conheça nossa loja virtual.
"Observatio diuturna, notandis rebus, fecit artem", dixit Cicero num livrinho que se intitula De divinatione Liber II"Observatio
diuturna, notandis rebus, fecit artem", dixit Cícero num livrinho que
se intitula De divinatione Liber II. Essa passou a ser a divisa do
Instituto de Anatomia da Faculdade de Medicina do Porto que se tornou,
ao tempo de J. A. Pires de Lima, um centro de estudos de teratologia
descritiva. Que fazer dos nado-mortos, senão autópsias? Que fazer do
conceito biométrico de anomalia, ou do conceito estatístico de
normalidade?
É
verdade. Para ver basta ter olhos. Olhar exige muito mais: é necessário
discernir o visível de si próprio, distinguindo nele planos em
profundidade e em largura, delimitar formas, observar mudanças e seguir
movimentos. Olhar acaba por ser impôr objectivos ao visível e, pouco a
pouco, a fazer dele objectos.
A
ciência tal qual é. A ciência pura. Puros fantasmas ao serviço de.
Agamben, ao fazer a genealogia do conceito de vida, conclui que em toda
a medicina grega não há um conceito médico-científico, como se pensa,
mas um conceito filosófico-político. "O homem é o ser vivo que não tem
nenhuma vocação biológica, histórica, etc.. É um ser de potência que
não se identifica com nenhuma figura determinada" (Guerreiro).
O
fantasma da inquisição é a pureza da fé. Que destino tiveram os judeus
e os ciganos, mas também os atrasados mentais e outras criaturas
consideradas como desvios à "raça pura"? Onde nos levará o horroroso
culto da uniformização em que todos temos de corresponder a um formato?
A que fantasma serve a ciência? De que "vida" se ocupa? Que formas de
eugenismo dissimula desde Francis Galton (1890/1962) que defende o
apuramento da raça humana através de cruzamentos selectivos? (Agamben).
Não teremos entrado há muito na projecção aterrorizadora de uma forma
de eugenismo, não ideológico - aquele que designaria categorias de
pessoas que não merecem viver - mas técnico? Não se terá a técnica
separado da ciência que servia a Vida, que, essa, fala em verdade? Não
estará o próprio discurso ético a alinhar-se com o discurso técnico,
sob pretexto de caridade: fazer as coisas o melhor possível? Barbosa
Sueiro fala, a propósito da anatomia, de "finalidade utilitária - mas
de virtuoso utilitarismo".
"O
monstro reflecte sempre uma determinada ordenação do mundo, seja este
natural ou cultural. Eles são a ruptura da ordem em que cristalizam
valores sociais e formas de conhecimento. Produz sentimentos e reacções
contraditórias: medo, temor, asco, mas também prazer e lubricidade.
Parte às vezes de uma cultura demonológica, outras vezes representação
do exótico, do desconhecido, do estranho. Ou se manifesta de forma
lúdica (lusus naturae), carnavalesca, ou transporta consigo o estigma
da admonição (Deus Irae). O monstro não é só o negativo de formas
variadas, mas também de graus diferentes de civilidade. Ambíguo,
portanto (Mourão). O recurso à Antiguidade tem aqui alguma pertinência.
A definição aristotélica de monstro (teras): "Aliás aquele que não se
parece com os pais é já, de certa maneira, um monstro porque, neste
caso, a natureza se afastou do tipo genérico" (Aristóteles). Um
andrógino é um prodígio que publicamente deve ser exposto como sinal
maléfico que o Estado deve fazer desaparecer. Levou tempo para que se
passasse a uma outra atitude: interpretar o fenómeno como um erro da
natureza, uma má-formação anatómica rara, mas explicável. Os seres
dotados dos dois sexos serão vistos como um jogo da natureza, é o que
Plínio o Velho explicitamente diz. A bixexualidade foi recebida
primeiro como monstruosidade, ameaça, depois como fenómeno explicável e
finalmente tolerado, recuperado como um "bem" de consumo (Bisson).
A
norma anatómica (Sueiro, 1950) faz lei. "Monstra vero per excessum
sunt", escreve Vandelli (1776). Porém, o normal foi sempre a crux da
ciência. As normas são essenciais aos discursos que animam a vida
social. A sua constituição esquemática explica o impacto afectivo que
acompanha a sua aparição discursiva. A norma parece exigir uma boa
distância, da parte das ocorrências que ela avalia, e que não devem
tomar o seu lugar. As normas manifestam uma sensibilidade dupla,
correspondendo a uma topologia com duas entradas
(pouco/assaz/demasiado), que regula os comportamentos aproximativos,
nomeadamente a imprecisão exigida, de todos os fenómenos normativos, do
domínio da gramática ao da jurisdição. Mas, em último caso, na norma
trata-se da estabilização do imaginário através da referência ao
semelhante, mecanismo que caracteriza a identificação categorial e
analógica, diz P. A. Brandt.
Não
obstante, mesmo entre cientistas o conceito de norma está sujeito a
discussão. Carlos May Figueira (1864) considera impossível aceitar a
ideia de Pareo, segundo a qual haveria hermafroditas com dupla aptidão
geradora. Geoffroy Saint-Hilaire (fundador da teratologia em bases
científicas) tem a melhor classificação: "hermafroditas com excesso e
sem excesso). Para Luís Guerreiro (1921) o corpus da anatomia é o corps
- cadáver. E, no entanto, tudo isto é considerado Biologia.
É
fácil identificar um monstro. É fácil idealizar a forma humana, as suas
variações musculares. Para o naturalista a vida não tem mistérios, tão
bem ele vê, tão bem educou o senso crítico. Não será então necessário
bem ver para melhor compreender? Se não podemos negar ao corpo medical
uma existência histórica, científica ou ideológica, é pelo menos
necessário reconhecer que esse corpo não é todo o corpo (quer dizer o
todo duma imaginação do seu real) e trabalhar pelo menos com o mínimo
de imaginário com que Valéry tentava descobrir nele funções
figurativas, ordens fantasmáticas.
Todo o discurso médico contemporâneo, higienista e moral, de que as bonecas de Pierre Spitzner são uma espécie de caricatura, apoia-se num catálogo desordenado das aberrações de imagens do corpo (Schefer). Para lá das aberrações iconológicas, é necessário notar que a "escrita" médica não tende a fazer significar algo ao corpo. E não se esqueça o seguinte: "From the point of view of the subject, the representation of the body, even when narrowly biological, is always an image of the self: identity, genealogical resemblance, cultural norm and configuration, etc.” (Abel)”. E todavia, haverá, no discurso dos saberes, discurso mais marcado por uma espécie de regularidade do fantasma (o do corpo como objecto, como labirinto, etc.) do que o discurso da medicina?
Artigo originalmente publicado na revista Triplov
